A VELHA AMIGA
Falar
de poesia pode soar estranho a alguns ouvidos habituados ao som
rascante dos motores e ao olhe o sapatinho ôô, do nosso
cancioneiro atual (“Cancioneiro?!”, que palavra mais
fora de moda!). Mas, enfim, vou nadando contra a corrente, e mesmo
correndo o risco de parecer ultrapassado, decido que será
este o tema desta crônica.
Devo confessar que levei muito tempo para
entender um pouco o que é a poesia. Na minha infância,
eu associava o termo a um doido de pedra que andava pelas ruas
de Itapuã com total disponibilidade de espírito
para rimar todas as sacanagens que se pudesse imaginar. Era só
dar o mote e lá ia ele, sob os gritos e aplausos da meninada
que saía do Colégio Lomanto Júnior, contando
histórias rimadas numa rapidez impressionante, rimando
bota com xota, xuxu com beiju e por aí vai (claro que não
vou dizer aqui quais eram as rimas verdadeiras, pois elas são
impublicáveis). O homem fazia um sucesso danado com a rapaziada
reprimida de então (as meninas ficavam olhando de longe,
com cara de reprovação; mas era só mesmo
aparência, pois elas não desgrudavam os olhos do
sátiro, como se quisesse saber tudo o que ele dizia).
Provavelmente eu reconheceria em Gregório de Mattos um
verdadeiro poeta satírico, se o lesse, ou o ouvisse, naquela
época. Mas, naqueles distantes anos 70, eu sabia muito
pouco de qualquer coisa que não fossem os babas, as dunas,
os cajus e o mar de Itapuã. Sem outras referências,
portanto, estacionei nos versos do poeta de subúrbio e
ali fiquei.
Depois vieram novas amizades, fui estudar no Colégio Central,
até que dei com os costados na universidade, onde aprofundei
o conhecimento da minha profunda ignorância. Era o bom tempo
das utopias, em que o sujeito achava que mudaria o mundo desferindo
poemas de Maiakovsky sobre os generais e seus canhões.
Os Poetas da Praça, capitaneados pelo falecido Antônio
Short, viravam mesas por onde passavam, e eu via neles, mais uma
vez, a imagem do poeta depravado de Itapuã, em sua nova
versão: a do poeta maldito.
Por temperamento e gosto, procurei outras praias mais tranqüilas.
Descobri a grandeza melancólica de Drummond, a loucura
amorosa de Carlos Anysio Melhor, a espiritualidade ascética
de Cecília Meireles e tantos outros verdadeiros poetas.
Descobri que a poesia era uma velha amiga, que estivera comigo
desde a mais tenra infância; que era, antes de tudo, revelação:
pela palavra, pelo ritmo, pelo som, pelo significado. Quanto aos
poetas de hoje (pra dizer a verdade, tão raros), lá
estão eles percorrendo as avenidas engarrafadas, passando
ao largo da Idade Mídia, lembrando os tempos antigos em
que havia muitos quintais. E me deixam aqui, com o desejo inútil
de trazê-los para essa Ágora vazia de menestréis,
que é a Imprensa. Vontade de dizer, como o poeta Aleilton
Fonseca:
O
poeta está melancólico:
O seu sangue cheira a fumaça
E lhe fere fundo o espinho
De uma dor que nunca passa
(1998)