tocando seu joelho com a mão esquerda: “Mas
não só eles. Tudo o mais: as paredes, o piso,
o teto e o próprio gabinete; a casa, o jardim e o
quintal. Até mesmo aquela estrela, vê?, deixa
de existir, assim como a percebemos, quando não olhamos
para ela”.
O
doutor C. com suas idéias estranhas. Um maluco,
sim, certamente. Mas a possibilidade de que todo o universo
se desfaça, continuamente, mas sem que jamais possamos
flagrá-lo, pesou um pouco no espírito de
Annabel. De repente, tudo à sua volta passava a
ser um fingimento, um contínuo ocultar-se, uma
assombrosa e insana brincadeira. E ela reduzia-se a quê?
A um olhar eternamente iludido?
Annabel lembrava-se de quando era uma frágil garotinha
de 12 anos e tinha a secreta convicção de
que era o único ser humano existente no universo.
Tudo o mais: pais, irmãos, tios, primos, amigos;
e até a casa em Itapuã, as dunas, o brejo
e os pássaros que o habitavam; o pôr-do-sol
sobre os coqueiros, a sombra na parede, a história,
as guerras, as revoluções e tudo o que diziam
existir, independentemente dela, não passava de
uma ilusão, de um artifício criado, sabe-se
lá por quem, para fazê-la crer que não
estava só. Não – pensava a menina
Annabel –, jamais ninguém morreu de fome,
nenhum corpo nunca foi trespassado por uma bala, nenhum
sofrimento jamais existiu.
Mas o seu olhar mudou, Annabel, e agora, neste exato momento,
você encontra-se, tal como o estranho anão
do Z., sob este portal de duas faces onde os caminhos
se juntam. “Olhe essa longa rua que leva para trás.
Ela dura uma eternidade! E aquela longa outra que leva
para a frente. Ela é outra eternidade”, disse
O Visionário. Vidas, gestos, palavras que se repetem
eternamente, inutilmente, e, ao seu lado, ele esqueceu
de dizer, as margens que se desfazem para logo em seguida
se refazerem. Sempre, sempre, sempre...
Então você sente a tentação
de flagrar Deus em seu jogo? Mas Ele jamais se deixará
flagrar, Annabel! Por isso, não adianta abrir rapidamente
a porta, nem lançar-se subitamente à janela
do seu sobrado, no Rio Vermelho, na vã esperança
de ver a Igreja de Santana, os barcos dos pescadores e
o mar no seu contínuo refazer-se. Tudo será
sempre, sempre inútil.
Mas por que esse sentimento de impotência numa tarde
assim tão luminosa? Por que esse sentimento de
impotência nesse final de tarde de uma sexta-feira,
na qual homens e mulheres despertam suas cíclicas
fantasias, manchadas de sêmen, suor e lágrimas?
Por que instala-se no seu espírito esse gélido
dezembro de um castelo à beira-mar? Para que esse
pássaro negro que murmura o ritornelo: Nunca, nunca,
nunca mais?
É
noite. Todos os gatos deslizam à sombra dos telhados.
As casas são meras faces tristes voltadas para
o poente. E o passado apenas uma menina brincando no assoalho,
numa tarde distante. E a luz fria do sol incidindo sobre
ela. E o Grande Silêncio.
Os galos da aurora cantam sobre a cerca. Os ferros retorcidos
do DKW imploram socorro - e os gritos, e os gritos, e
os gritos. Oh, Annabel Lee, sua vida é um salto
sobre a grande fenda do Pacífico; um mergulho nas
profundezas, entre peixes improváveis que brilham
na escuridão. É um beijo que jamais terminará
– porque nunca, nunca começou.
Never more! Never more!
Sim, o mundo, agora, que você fecha os olhos e dorme,
é uma sopa primordial, que você toma com
uma colher, enquanto pensa na morte, que não existe.
E pensa que, sim, você sempre esteve preparada para
morrer, pois, como disse alguém, “O pensar
na morte é o fim de todo pensar”.