CONTO - ANNABEL

29/03/02



Annabel observou, com muita atenção, os livros, na biblioteca, antes de sair e fechar a porta do gabinete. Do lado de fora, ao ouvir o ruído da porta fechando-se, lembrou-se das palavras do doutor C.: “Annabel, preste atenção no que vou dizer-lhe: No momento exato em que você tirar os olhos daqueles volumes, ali arrumados na estante, está vendo?, todos eles se dissolverão. Sinais, letras, palavras, caracteres, papel se diluirão, num piscar de olhos, num caldo quântico, para logo se recomporem, quando você novamente colocar seus lindos olhos sobre eles, Annabel”. E acrescentará, com um sorriso,

tocando seu joelho com a mão esquerda: “Mas não só eles. Tudo o mais: as paredes, o piso, o teto e o próprio gabinete; a casa, o jardim e o quintal. Até mesmo aquela estrela, vê?, deixa de existir, assim como a percebemos, quando não olhamos para ela”.

O doutor C. com suas idéias estranhas. Um maluco, sim, certamente. Mas a possibilidade de que todo o universo se desfaça, continuamente, mas sem que jamais possamos flagrá-lo, pesou um pouco no espírito de Annabel. De repente, tudo à sua volta passava a ser um fingimento, um contínuo ocultar-se, uma assombrosa e insana brincadeira. E ela reduzia-se a quê? A um olhar eternamente iludido?

Annabel lembrava-se de quando era uma frágil garotinha de 12 anos e tinha a secreta convicção de que era o único ser humano existente no universo. Tudo o mais: pais, irmãos, tios, primos, amigos; e até a casa em Itapuã, as dunas, o brejo e os pássaros que o habitavam; o pôr-do-sol sobre os coqueiros, a sombra na parede, a história, as guerras, as revoluções e tudo o que diziam existir, independentemente dela, não passava de uma ilusão, de um artifício criado, sabe-se lá por quem, para fazê-la crer que não estava só. Não – pensava a menina Annabel –, jamais ninguém morreu de fome, nenhum corpo nunca foi trespassado por uma bala, nenhum sofrimento jamais existiu.

Mas o seu olhar mudou, Annabel, e agora, neste exato momento, você encontra-se, tal como o estranho anão do Z., sob este portal de duas faces onde os caminhos se juntam. “Olhe essa longa rua que leva para trás. Ela dura uma eternidade! E aquela longa outra que leva para a frente. Ela é outra eternidade”, disse O Visionário. Vidas, gestos, palavras que se repetem eternamente, inutilmente, e, ao seu lado, ele esqueceu de dizer, as margens que se desfazem para logo em seguida se refazerem. Sempre, sempre, sempre...

Então você sente a tentação de flagrar Deus em seu jogo? Mas Ele jamais se deixará flagrar, Annabel! Por isso, não adianta abrir rapidamente a porta, nem lançar-se subitamente à janela do seu sobrado, no Rio Vermelho, na vã esperança de ver a Igreja de Santana, os barcos dos pescadores e o mar no seu contínuo refazer-se. Tudo será sempre, sempre inútil.

Mas por que esse sentimento de impotência numa tarde assim tão luminosa? Por que esse sentimento de impotência nesse final de tarde de uma sexta-feira, na qual homens e mulheres despertam suas cíclicas fantasias, manchadas de sêmen, suor e lágrimas? Por que instala-se no seu espírito esse gélido dezembro de um castelo à beira-mar? Para que esse pássaro negro que murmura o ritornelo: Nunca, nunca, nunca mais?

É noite. Todos os gatos deslizam à sombra dos telhados. As casas são meras faces tristes voltadas para o poente. E o passado apenas uma menina brincando no assoalho, numa tarde distante. E a luz fria do sol incidindo sobre ela. E o Grande Silêncio.

Os galos da aurora cantam sobre a cerca. Os ferros retorcidos do DKW imploram socorro - e os gritos, e os gritos, e os gritos. Oh, Annabel Lee, sua vida é um salto sobre a grande fenda do Pacífico; um mergulho nas profundezas, entre peixes improváveis que brilham na escuridão. É um beijo que jamais terminará – porque nunca, nunca começou.

Never more! Never more!

Sim, o mundo, agora, que você fecha os olhos e dorme, é uma sopa primordial, que você toma com uma colher, enquanto pensa na morte, que não existe. E pensa que, sim, você sempre esteve preparada para morrer, pois, como disse alguém, “O pensar na morte é o fim de todo pensar”.