A CORTINA MUSICAL


Deu na TV: um inventor americano (tinha que ser americano? Eles já não inventaram coisas demais?) bolou uma cortina que transforma os ruídos da rua em... Música! Não é mesmo fantástico? Você coloca a cortina na janela, um sujeito grita um palavrão lá fora e você ouve aqui dentro um noturno de Chopin. O cachorro late, a vizinha reclama e você ouve uma Ária de Bach, o cobrador bate na porta e você ouve um chorinho ou um lamentoso blues, desses que tocam fundo na alma.

Claro que a reportagem não entrou em detalhes sobre os gêneros musicais que a cortina dispõe. Ou sobre que instrumentos ela pode colocar à nossa disposição, o que dependerá, provavelmente, das suas condições financeiras e da bolsa de valores. Vamos dizer que com 300 dólares possa levar uma cortina com todo o aparato e a competência da Orquestra Sinfônica de Moscou. Com cinqüentinha, leva uma especializada em pagode. Mas antes que alguém diga que tudo isto é besteira, que a cortina permite criar apenas um som ambiente, tipo new age (desses que fazem grama crescer), quero dizer que não cheguei a ver a reportagem. Minha mulher, que assistiu, se encarregou de me contar. O resto é imaginação. Imaginar ainda não nos custa nada, não é?

Que me custa imaginar, por exemplo, uma cortina que transforme grandes sucessos da música axé num autêntico samba do Recôncavo Baiano, daqueles que só um Roberto Mendes sabe tocar? Ou numa ária sertaneja do Elomar? Ou num suave ijexá? Poderia inclusive alterar as letras: o sujeito canta lá fora: “Pega no compasso, vai, pega no compasso que o painho vai atrás”, e a cortina nos entrega: “Quando na janela/ Eu me debruço/ O meu cantar é um soluço/ A galopar no maçapê”; o rádio emenda: “Solta o sapatinho ôô”, e a cortina, espertíssima, oferta: “Lá, em cima do telhado, meu sonho encantado era pertinho do céu”.
Fabricar-se-iam cortinas poéticas: épicas e dramáticas; românticas, modernas e pós-modernas; exaltadas, silenciosas; mudas, surdas, mas nunca indiferentes. Cortinas, enfim, para todos os gostos. Da minha parte, encomendaria uma cortina discreta, levemente melancólica e compreensiva, que de manhã encheria a casa com a suave Pavana de Ravel e à noite com uma bela composição andina. E, entre um e outro afazer, encontraria tempo para dizer, como o poeta Ruy Espinheira:

É o luar que me inventa
Nesta varanda de prata.
Faz bem pouco, havia apenas
Silêncio, e uma alma escassa.

(1998)