UMA CARTA PARA OS RECÉM-NASCIDOS


Carlos Ribeiro

Querido Alexandre, querida Maria:

Escrevo-lhes numa quarta-feira tranqüila, sem chuva e com bons augúrios.

Provavelmente vocês jamais lerão esta carta. Ela se perderá, como muito se perde, hoje em dia, em meio a informações que se cruzam, como carros numa avenida movimentada. Mas escrevo-lhes, mesmo assim, movido por uma alegria íntima de tê-los recém-chegados entre nós.

No momento em que inicio esta mensagem, a Seleção Brasileira joga com a Bolívia, um combate pífio, sem gols e sem grandeza. Mas, em compensação, na Europa, realiza-se o maior experimento científico da história. Um acelerador de partículas, dizem os físicos, pretende recriar os instantes imediatamente posteriores ao Big Bang e assim revelar-nos os mistérios do surgimento do Universo.

Acreditem: investiram oito bilhões de dólares nele! Vocês têm idéia de quantas mamadeiras podem ser compradas com oito bilhões de dólares? Melhor não ocupar suas cabecinhas com tais números.

Concretizem-se ou não as expectativas dos cientistas, este não é, definitivamente, um dia qualquer para se vir ao mundo, não é mesmo? No exato momento em que se descortinam tais revelações, eis que vocês chegam, leves e faceiros, convergindo hora, hospital, mães, pais, avós e amigos como um daqueles alinhamentos de planetas que só acontecem de cem em cem anos.

Eis uma boa conjunção, vamos convir. Até parece que vocês andaram combinando coisas lá no outro lado. Poderia até notar aí um discreto toque de humor e um extraordinário senso de oportunidade. Não será este, Maria, o primeiro agradinho que você faz no seu avô? Será mesmo por acaso que a Orquestra Sinfônica da Bahia comemore, justamente hoje, 26 anos de existência, executando a 9ª Sinfonia de Beethoven no palco do TCA?

Ciência e Música. Beethoven e Big Bang. Eis um BBB bem mais alentador para os dias vindouros.

No geral, entretanto, as notícias correm em tom menor: as manchetes dos jornais, no dia dos seus nascimentos, mostram que a diretoria do Bahia pede R$ 1 milhão para o time jogar no Barradão; que Juliana Paes casa-se com um empresário; que o Brasil tem um bom desempenho nas Paraolimpíadas de Pequim e a Bolsa de Valores continua instável, acumulando 24% de queda neste ano.

Nada que mereça tomar o precioso tempo de vocês.

Bem... já estou aqui numa conversa animada, mas a verdade é que ainda não os conheço. Já vi até a carinha do Arthur - outro festejadíssimo membro de sua geração, que nasceu há poucos dias lá nas bandas do Norte - numas fotos que circularam aí na internet. De vocês, nada. (Não se inquietem, por favor, a culpa é toda minha.) Mas já posso vê-los caminhando neste admirável mundo, não mais tão novo, é verdade, que se derrama em possibilidades.

Quantas possibilidades!

Sei que há ainda um longo caminho a percorrer. Tenham paciência: terão que ir para a escola - mesmo naquelas manhãs chuvosas que pedem uma aventura no quintal (talvez no playground, vá lá, nem tudo é perfeito); precisarão aprender a prova dos nove e o cálculo infinitesimal. Ouvirão muitos "não", "cuidado", "não mexa nisso, menino", "está na hora de dormir, menina". Mas, terão também a oportunidade de ver nascer o mundo. As nuvens escreverão mensagens no céu, somente para vocês. A noite lhes abraçará como um velho amigo, e o vento, esse incansável vagabundo, contará histórias muito antigas; histórias que pucas pessoas conhecem, pois que é preciso saber escutá-lo.

Ouçam o vento. Ele é um sábio disfarçado de coisa alguma. Um estranho mágico que se faz sentir em sua invisibilidade móvel.

Ah, meus amigos: o mundo está mesmo aí, batendo na porta. Não se impressionem com as caretas que ele às vezes faz. É um grande amigo, com suas nuvens, montanhas, com suas flores e frutos; até mesmo com suas dores que tanto nos ensinam. E, se vocês souberem lidar com ele, haverá sempre um click à sua disposição. Eles, os clicks, podem chamá=los também de "estalos", voam à nossa volta, como abelhas, pois, como sabemos, uma abelha só não faz ferrão.

Teria muitas coisas pra lhes dizer, mas de que serviria? Enquanto escrevo, as baleias continuam vindo dos mares gelados da Antártica, os pingüins chegam em grupos às nossas praias, o mar vira sertão, o sertão vira mar, faz calor na Groenlândia, o metrô na cidade parece um dinossauro encalhado e a Boa Nova vem chegando, com a nossa gente fazendo parte dela; suas mães são amorosas, seus pais gente boa, os avós absolutamente corujas e o Futuro, meus amigos, tem o tamanho dos seus corações: embora sejam eles tão pequenininhos neste momento em que começam as primeiras, ora rápidas, ora ternas, das inumeráveis batidas que lhes estão destinadas.

Que seus corações batam, batam, sem peias, pelo tempo afora! - é o que lhes desejo. Batam afinados com os dos seus pais, avós, amigos. Batam com eles e por eles, e continuem ecoando nas batidas dos que lhes sucederão, com amor e alegria.

Maria, Alexandre, Arthur e todos meninos e meninas que já chegaram e que estão por vir: estávamos mesmo precisando de reforços para essa Esperança que nos acena e sorri, ali, no outro lado das dunas.

Ela está de olho em vocês.

Com carinho, do amigo desconhecido.

10/09/2008 Enviada em 11/09