UMA BOA AUTO-AJUDA



Carlos Ribeiro

Recebo e-mails com mensagens assinadas por escritores famosos. Cheio de dedos e correndo o risco de parecer pedante, ouso dizer que tais mensagens não são daqueles autores e consistem, portanto, em falsificações, geralmente piegas e caricatas. Não preciso dizer que tal atitude, da minha parte, é antipática e não é difícil imaginar o quanto aqueles que me enviam tais mensagens ficam chocados com a minha ingratidão. Resistem à idéia de que sejam falsificações - quando muito, são homenagens. Não tão justas, é claro, considerando que "são bem melhores do que o que aqueles autores escrevem, de verdade."

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Ofendida com os meus argumentos, uma dessas boas almas que passam o dia a repassar correntes, a torto e a direito, argumenta que, se tal escritor não escreveu aquela mensagem, o azar é todo dele, pois que se trata de uma mensagem positiva - e são as mensagens positivas o que "realmente importa".

Fico em maus lençóis, portanto, quando digo que nenhuma mensagem é realmente positiva se está revestida de lugares-comuns. Nem no que diz respeito à poesia, nem no que diz respeito à espiritualidade, nem no que diz respeito a uma conversa no botequim.

Para uma palavra ter força e eficácia, ela tem que trazer algo novo e estimulante. Mas não se deve confundir isto com o novidadeirismo de experimentalismos muitas vezes vazios. A força e a eficácia têm a ver com a experiência associada à expressão.

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Num diálogo de Liev Tolstói com Máximo Górki, belamente reproduzido no livro Três russos e como me tornei um escritor (Martins Fontes Editora, 2006, 198 páginas, tradução de Klara Gourianova), diz o autor de A morte de Ivan Illitch: "Vejam como os mujiques sabem criar bem. Tudo é simples, poucas palavras, mas muito sentimento. A verdadeira sabedoria é lacônica, como 'Deus nos acuda!'"

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A beleza e a "utilidade" da arte, não estão numa "mensagem", pelo menos, não no sentido banal do termo, nem num conceito de "positividade", que lhe é estranho, mas numa coisa misteriosa, num arranjo de elementos (palavras, traços, cores, sons) que expressam as nossas dores, alegrias, angústias, sofrimentos e despertam o belo no nosso sentimento, até mesmo quando tratam de coisas "feias".

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Outro dia, ao ler as Recordações da Casa dos Mortos, de Dostoiévski, senti que livros como aquele são uma verdadeira auto-ajuda. Em Três russos e como me tornei um escritor, Tolstói traduz a necessidade de se representar, na literatura e nas artes, também o aspecto infame e asqueroso da vida.

Após relatar a cena repugnante de uma mulher bêbada, caída na lama, ao lado do filho, "um menino loirinho, de olhos cinzas", cujas "lágrimas corriam pelas faces", Tolstói disse, para Górki: "Não escreva sobre isso, não é preciso", "é vergonhoso escrever sobre coisas nojentas". Mas, após meditar sobre as suas palavras, acrescentou que "é preciso escrever de tudo, sobre tudo, senão o menino loirinho ficará ofendido e dirá com censura: não há verdade, não há toda a verdade".

O menino, diz Tolstói, "é exigente com as verdades". Nós devemos ser exigentes com as verdades.

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Três russos e como me tornei um escritor é um desses livros que nos fazem um bem enorme, pela mestria como é escrito, pela riqueza da observação, pela capacidade que tem de revelar experiências e reflexões profundas - do próprio autor e dos três escritores retratados: Tolstói, Anton Tchekov e Leonid Andrêiev. Não por acaso, Thomas Mann considera "o quadro de Liev Tolstói pintado por Máximo Górki o escrito mais importante do autor de Pequenos burgueses", conforme diz Manuel da Costa Pinto, no prefácio. Eis aí uma excelente auto-ajuda, com a força do gênio - e sem efeitos colaterais.