SOBRE BELEZA E AFINIDADES
Carlos
Ribeiro
Há em nossas vidas momentos que nos trazem alegria e uma
profunda satisfação íntima. No meu caso particular,
e creio que no de muitas outras pessoas, tais momentos estão
sempre relacionados com a natureza, a arte e os afetos.
A beleza se manifesta em sons e imagens: um coqueiro curvado pelo vento, um pássaro
pousado num muro (como faz uma bela ave, tão comum nas cancelas dos sertões,
prima do bem-te-vi, o siriri, cujo nome científico é Tyranus melancholicus,
que coisa linda, não é?), um sorriso, um aceno, um reflexo da luz
do sol nos cabelos, uma voz que surge do silêncio como canção
ou chamado, uma música - o que seria a vida sem ela! -, um desenho esboçado
em qualquer lugar (a areia, o papel, o vidro sujo de um carro), o movimento de
um animal (um gato, um cão, um cavalo), um gesto de compreensão,
as ondas quebrando numa praia distante de um sonho ou do passado (não
são as mesmas?), enfim...
Há momentos de plena beleza que não sabemos explicar. Lembro-me
de um momento de imenso prazer estético proporcionado pelo reflexo da
luz do sol, num final de tarde, na porta do quarto de uma casa onde vivi, há muitos
anos; havia algo de mágico naquela claridade, algo que me trazia um sentido
de eternidade.
Por um momento senti que a porta abrigava o mundo inteiro e vê-la, como
escrevi certa feita, era como "se pudesse ver também florestas e
dinossauros, aviões e bombas, chuvas ancestrais e pores de sol, neblinas,
nevoeiros, tiros e risos, bilhões de risos, oceanos, seios, lábios,
dentes, pérolas e tubarões, gritos e abismos, anjos, labirintos
e multidões, aranhas e computadores, estrelas, duendes e demônios,
eu e a porta, e o meu olhar e a luz do sol incidindo sempre assim obliquamente
desde o início dos tempos e uma grande solidão. A solidão
de ser subitamente uma porta parada no tempo que se olha, uma porta que se olha".
Foi um momento de extrema beleza, mas logo o sol se pôs, as sombras invadiram
aquele espaço e nunca mais a porta foi aquela porta.
Por quê? Quem saberia dizer?
Somos imensamente ricos e a nossa riqueza, tal como as moedas do Tio Patinhas,
são incontáveis; e já nem sabemos qual é a nossa
moeda número 1. Podemos, claro, especular: talvez seja as mãos
que nos ampararam neste mundo, ao nascermos; ou o primeiro olhar da nossa mãe:
aquele que ninguém viu, tão rápido e fugaz, perdido para
sempre, talvez conservado num Tempo que colhe todos os tempos. Ou o primeiro
gole do leite materno que nos diz que o mundo é bom. E que logo teremos
mais.
Os afetos são, sim, pérolas que colhemos e muitas vezes perdemos
ao longo da nossa existência, o que não deixa de ser triste; mas
há as que conservamos e que levaremos conosco quando atravessarmos a grande
porteira. E, então, desgarradas dos entes queridos, as pérolas-lembranças
passam a ser nós mesmos até outros encontros, em outras vidas,
que na verdade são sempre a mesma, quando, de repente, sem motivo lógico,
sentiremos aquele estranho sentimento que chamamos de afinidade.
Há tanto para se dizer sobre afinidade...