SINAL DOS TEMPOS


Carlos Ribeiro

Talvez seja um sinal dos tempos. Não dos tempos gerais da nossa combalida humanidade, mas de um tempo íntimo, pessoal, deste cronista. Talvez seja um sinal dos tempos, mas o fato é que poucas, muito poucas coisas, hoje, provocam nele o entusiasmo e o arrebatamento tão freqüentes da infância até o início da sua vida adulta. Veja-se aqui, por falta de espaço, apenas uma fonte daqueles sentimentos de outrora: o cinema, com sua magia hoje tão escassa.

Como eram bons os tempos, pensa ele, em que se sabia, de forma integral e inequívoca, quando um filme era realmente bom. Bastava, para isto, que nos atingisse em cheio, provocando uma emoção intensa, enfim, uma catarse, que repercutia durante semanas. Eram especiais, nos seus tempos de menino, os filmes em Cinemascope, com as aventuras do marujo Simbad, ressaltadas em todo o seu esplendor pelos efeitos especiais de Ray Harryhausen. Filmes que assistia no cine Guarany, onde a exibição das fitas era precedida pela execução solene de um trecho da ópera O Guarany de Carlos Gomes, e pela abertura de enormes cortinas.

Havia épicos grandiosos, a exemplo de Spartacus e Ben Hur, que tinham na imensa tela em 70 mm do cine Tupy sua mais perfeita expressão. Sem falar, é claro, nos cine poeiras da Baixa dos Sapateiros, especialmente o Pax e o Jandaia, onde ele se deliciava com a performance de heróis mitológicos (Maciste, Hércules) e pistoleiros implacáveis dos westerns spaghetti, sendo maior dentre eles o Django interpretado por Franco Nero, nos filmes de Sérgio Corbucci.

Mais tarde esses heróis seriam substituídos por personagens anônimas e mais humanas, embora, da mesma forma, superficiais, no claro-escuro do binômio bandido-mocinho. Chegaria a fase dos filmes catástrofes, com seus efeitos especiais, hoje primários e até risíveis para as novas gerações; os policiais Bullit, Dirty Harry; as fitas de terror e suspense (O exorcista, A profecia), até aterrissar em clássicos da ScFiction, como Blade runner e Alien, estes já na fronteira para uma outra forma de fruição.

Aos poucos, sofisticava-se a percepção da obra cinematográfica, através de obras agora consideradas pelo seu aspecto artístico: o enredo, a trama dava lugar a um prazer que considerava, agora conscientemente, os movimentos de câmera, os planos, o roteiro, a edição, a cor, a trilha sonora, os diálogos, a tessitura sutil da linguagem fílmica, a profundidade psicológica e filosófica de autores como Kurosawa, Bergman, Glauber, Fellini, Ford, Hitchcock, Schlesinger, Lean, De Sica, entre tantos outros. Um forma de prazer dava lugar a outra, agora degustada nos cines Art, Liceu, Icba, Maria Bethânia e Walter da Silveira, até chegar ao circuito alternativo atual e aos aparelhos de dvd. Para se alcançar aquele efeito pleno, exigia-se muito mais. Um filme pode ter uma direção perfeita, mas um roteiro fraco; uma boa interpretação dos atores, mas uma direção apenas competente.

Da primeira fase, da emoção pura, o último grande exemplo foi provavelmente Os caçadores da arca perdida, de Spielberg. Da segunda, talvez, Nosferatu, o vampiro da noite, de Werner Herzog. Ambos curiosamente no final dos 70 e início dos 80, o que revela que ambas as fases não são necessariamente sucessivas, nem totalmente distintas.

O que, depois disso, repercutiu, até os seus alicerces, neste colunista? Há, claro, filmes excelentes em cartaz, hoje, nos cinemas - A travessia de Cassandra, de Woody Allen, Antes que o diabo saiba que você está morto, de Sidney Lumet, A vida dos outros, de Florian Henckel von Donnersmarck e os filmes dos irmãos Coen; alguns filmes chineses, brasileiros, argentinos, iranianos - são exemplos disto, mas a verdade, amigos, é que a paisagem está cada dia mais cinzenta. E, cada vez mais escassa a emoção profunda de uma era dourada, que, como todas as eras doutoradas, habita sempre no passado - até que hoje também o seja, no presente que nos aguarda... no futuro.