SAGRADO COM ROSTO HUMANO
Carlos
Ribeiro
Jornal Bahia Norte – Maio / 2008
O francês Luc Ferry, 56 anos, é hoje um dos maiores popularizadores da filosofia: seu livro Aprender a viver: filosofia para os novos tempos, vendeu 230 mil exemplares na França, e 14 mil no Brasil, onde foi lançado em 2006 pela Editora Objetiva.
Ex-ministro da Educação do governo de Jacques Chirac – foi dele a decisão de proibir a utilização de símbolos religiosos nas escolas francesas (do ensino fundamental, e não nas universidades, como muitos pensam) –, foi o convidado, na última terça-feira, 29 de abril, do projeto Fronteiras Braskem do Pensamento.
Falou, no Teatro Castro Alves, para o auditório lotado, sobre sua principal tese: a da importância, no tempo dessacralizado em que vivemos, de uma espiritualidade laica, não religiosa, cujas origens se encontram na Grécia Antiga. “Os gregos já imaginavam uma espiritualidade leiga, não religiosa”, diz o filósofo, lembrando o trecho da Odisséia em que a deusa Calipso oferece a Ulisses vida e juventude eternas para que desista de retornar ao lar e permaneça com ela. Ulisses recusa a oferta e prefere arriscar-se na travessia do mar e dos abismos profundos para rever a mulher, Penélope, e o filho, Telêmaco.
Tal atitude, segundo Ferry, “diz que uma vida de mortal bem vivida é melhor do que uma vida ruim de imortal. A eternidade não é essencial. Temos que aceitar a morte para ter uma boa vida. Esta é a primeira lição que vale para nós ainda hoje.”
A segunda lição encontra-se na Teogonia, de Hesíodo: a da construção de um mundo ordenado, com harmonia. Após vencer os titãs, maus e violentos, Zeus e os demais deuses da segunda geração compartilham a terra, o mar, os subterrâneos e o ar. Constrói-se, assim, o Cosmos, no qual uma vida boa seria aquela na qual o ser humano encontra o seu lugar no mundo. “É isso que Ulisses faz, ao reencontrar Penélope e Telêmaco”, diz ele.
Uma terceira lição, dentro da filosofia proposta por Luc Ferry, é, na verdade, uma idéia antiga já adotada pelos estóicos e pelo budismo: A idéia fundamental definida pela espiritualidade não religiosa, de que o passado e o presente são duas palavras que pesam sobre a natureza humana. O passado nos puxa sempre para trás e suscita dois sentimentos: o das ‘paixões tristes’, referidas por Spinoza, e o da nostalgia, quando o passado foi bom, ou da culpa, quando foi ruim. “O passado e o futuro são armadilhas. Fazem com que não nos conciliemos com o presente: a única dimensão que existe. Devemos amar e habitar o presente. A mesma idéia está no budismo: Saibam que as pessoas que estão presentes aqui e agora são as mais importantes do mundo, porque são as únicas reais”.
Posto isto, a questão crucial levantada por Ferry é saber como chegar ao bom viver, à sabedoria em um mundo leigo, desencantado. É então necessário colocar o mundo contemporâneo em relação ao mundo antigo. Fazer a distinção crucial entre a moral e a espiritualidade, entre a moral e a sabedoria. “O que seria a moral: fundamentalmente, é o respeito pelo outro. Os direitos do homem, de opinião, de circulação. Mas ela não nos permite resolver os problemas da vida: a questão da velhice, por exemplo. A moral não impede que envelheçamos e morramos. A dor pela morte dos seres humanos não é uma questão moral.”
Questões muito importantes da existência não têm, portanto, a ver com a moral. Elas se agrupam numa forma que é a espiritualidade: esfera do pensamento que nos permite refletir sobre estas questões. E é na espiritualidade leiga, que diz respeito à filosofia e não à religião, que se pode, segundo ele, encontrar-se uma referência. “É preciso encontrar, hoje, o análogo da sabedoria grega, que já não mais atende às nossas necessidades. É preciso construir a sabedoria moderna. A idéia de Cosmos se despedaçou com a física moderna, com a revolução científica. O mundo não é mais o cosmos para nós.”
Ferry chama a atenção para o momento presente, quando vivemos uma situação excepcional. “O século XX foi o século das desconstruções dos valores tradicionais: na música, na pintura, no romance, na moral burguesa. Foi onde se inventou a vida de boêmio, dos contestadores, dos marginais que se opõem à vida burguesa”. O que há por trás disso?, pergunta o filósofo. Por que vamos perder a sabedoria antiga? A dos gregos e a dos cristãos? E acrescenta: o que está por trás dos boêmios é a expansão do capitalismo moderno. A sua marcha vitoriosa. Era necessário desencantar o mundo, para que este pudesse ser objeto de consumo, de exploração, da grande máquina que serve ao lucro.
Esse processo de dessacralização aconteceu em dois momentos da mundialização: o da revolução científica, quando a ciência moderna passa a ser o primeiro discurso universal que pretende valer para todos os seres humanos. E, mais recentemente, o do que chama de segunda globalização, no qual a lógica do mercado se torna, não apenas implacável, mas também descontrolada. “Hoje avançamos para atender a lógica implacável da competição. Avançamos não em direção a um ideal superior, mas empurrados pela lógica da competição. O que me faz avançar é o benchmarking.
Como conseqüência, passamos a viver num universo em que se perdeu o sentido da história: Não existe mais objetivo, não existe finalidade. Perdeu-se o poder em relação ao curso do mundo. “O mundo nos escapa. Há ainda a idéia falsa de que alguém domina os mercados financeiros, mas não existe nada por detrás deles. Se houvesse era bom, porque teríamos responsáveis”.
Na lógica desse mundo globalizado, diz o filósofo, pretende-se “destruir na cabeça dos nossos filhos aquilo que poderia frear o consumo: quanto mais você tiver uma vida moral e cultural rica, menos precisará adquirir coisas idiotas nos supermercados. É preciso romper na cabeça dos meus filhos aqueles valores sólidos”. Foram, portanto, os capitalistas os verdadeiros demolidores dos valores tradicionais. Não foi Picasso, nem Joyce”.
Ferry recusa, no entanto, a nostalgia. Não há mais sentido em se querer retornar ao paraíso perdido. Mas, sim, verificar que novos valores estão surgindo. As três grandes figuras do sagrado – Deus, Pátria, revolução – foram demolidas. E, o que caracteriza o século XXI é a emergência de uma nova figura do sagrado: o ser humano, ele mesmo. “Ninguém mais está disposto a morrer pela Revolução, mas está disposto a morrer pelo ser humano. Estamos na era da aparição do sagrado com o rosto humano”.