REFERÊNCIA E PROMESSA
Carlos
Ribeiro
A Tarde – Opinião (16/01/08)
A realização do Seminário de literatura, linguagem & expressão, em Cachoeira e São Félix, entre os dias 8 e 12 deste mês, resultou numa experiência que merece ser examinada com a devida atenção. Em primeiro lugar, deve-se ressaltar o fato de ter sido um evento promovido conjuntamente por professores e alunos do Centro de Artes, Humanidades e Letras da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia / UFRB e por membros das comunidades de ambas as cidades – o que configura, desde já, uma ação efetiva para a integração da universidade com as comunidades locais. Não por acaso, a proposta da organização do evento é justamente a de “contribuir para aumentar os laços entre a comunidade e a universidade, estimulando o diálogo constante e o aprendizado mútuo”.
Outro ponto a destacar é que o evento contou com a presença de escritores, artistas, estudiosos e pesquisadores de outros estados, que tiveram contato, pela primeira vez, com essa importante região da Bahia. Mostraram-se, sem exceção, encantados com a beleza e o potencial das cidades, no sentido de virem a tornar-se um importante pólo cultural no País, assim como Ouro Preto, com seu festival de inverno, em julho, e o Fórum das Letras, em novembro, ambos organizados pela Universidade Federal de Ouro Preto; e Parati, com sua festa literária que, criada em 2003, já é uma referência internacional, ao lado dos festivais de Toronto, Berlim e Edimburgo.
Esquecidas e relegadas, apesar de toda a retórica oficial a respeito de sua importância histórica e cultural, com altas taxas de desemprego e falta de perspectivas profissionais e existenciais para seus moradores, sobretudo os mais jovens, São Félix e Cachoeira encontraram, nesses cinco dias do seminário, uma oportunidade para mostrar algo da sua riqueza: não aquela que se convencionou emoldurar na imagem oficialesca do turismo, mas a que traz a marca da sua expressão como coletividade.
Nas suas mesas redondas, palestras, oficinas e recitais poéticos – feitos em varandas e sacadas de belos casarões centenários, em jardins à luz de velas, nas ruas e praças, rompendo limites de horários e, não poucas vezes, invadindo a madrugada – o seminário teve outra característica marcante: a de aproximar vozes, concepções, disciplinas e instâncias acadêmicas diversas. Exemplo disto foram a mesa redonda sobre História & Literatura, a palestra sobre a poesia no Mundo Antigo e as análises e leituras feitas por alunas do curso de jornalismo dos escritores Nelson Rodrigues, Jorge Luís Borges, Rubem Fonseca, Machado de Assis e Edgar Allan Poe.
Os coordenadores do evento, Nuno Gonçalves, João de Moraes Filho, Maíra Castanheiro, Raquel Pinto e Renata Pitombo devem estar conscientes de que têm agora o compromisso de dar continuidade a esse evento, tornando-o uma referência das artes e da literatura no nosso estado e, quiçá, além das nossas fronteiras.
CARLOS RIBEIRO / Professor da UFRB e membro da Academia de Letras da Bahia. E-mail: cribeiro@atarde.com.br