DE PECADOS E CASTIGOS



Carlos Ribeiro

A Tarde – Opinião 16/04/08

            A Igreja Católica sempre foi eficaz em oferecer ajuda para todos os tipos de padecimentos. Para isto produziu santos e os subdividiu numa extensa galeria que inclui, entre tantos outros, São Roque, padroeiro dos inválidos, São Judas Tadeu, das causas difíceis e até um São Fiacre, que labuta incansavelmente contra hemorróidas. (Na verdade, cura problemas físicos de toda espécie.)  O tempo, no entanto, passa, os costumes mudam e a Igreja não se renovou na criação de santos aos quais possamos apelar na hora dos nossos atuais sofrimentos, de forma que nos encontramos no mato sem cachorro. (Eis outra área, a dos ditados populares, na qual devemos também nos atualizar, já que não temos mais muito mato, embora não nos faltem cachorros.)

            São outros os dilemas com os quais nos deparamos na pós-modernidade. A quem devemos apelar, por exemplo, para que nos salvem das infames, horrendas, irritantes, estressantes, humilhantes secretárias virtuais das operadoras de telefonia, mil vezes piores do que as górgonas enfrentadas por Perseu? Oh! Céus! Como eram insignificantes os padecimentos dos nossos antepassados!

Nem Dante, na sua mais alta inspiração para conceber os horrores do inferno, conseguiu imaginar uma cena como a seguinte: O cidadão liga para a operadora X (todas elas são iguais no serviço tortura ao cliente) e passa duas manhãs, feito um idiota, num diálogo do tipo: ATENDENTE VIRTUAL: (com voz suave): “Por favor, diga pausadamente qual o motivo da sua ligação”. CLIENTE: “Cancelamento do serviço tal”. ATENDENTE VIRTUAL: “Entendi. Você quer adquirir mais uma linha! Muito bem!!!” CIENTE: “Não! Eu quero cancelar!” ATENDENTE VIRTUAL: “Entendi! Você quer fazer o nosso Plano Blábláblá Total!!! Muito bem!!!”

            Por isso – oh! Santo Padre! – neste momento em que estás empenhado em definir a existência de novos pecados para o século XXI, imploramos que nos ofereça santos atualizados para as nossas dores e que estes possam nos livrar dos patifes que se escondem por trás das vozes impessoais que nos infernizam a vida.

E, convenhamos, é momento também de se atualizar o Inferno, pois que os castigos de outrora já não assustam os Calígulas de agora. Podemos sugerir que pecadores tais, após terem uma banda tostada em fogo brando por duzentos anos (somos misericordiosos), possam ligar para a ATENDENTE CELESTIAL, com a qual terão o seguinte diálogo. ATENDENTE CELESTIAL (com voz suave): “Por favor, diga pausadamente qual o motivo da sua ligação”. PECADOR TAL (aos berros): “Pelo amor de Deus! Me tire daqui!!!”. ATENDENTE CELESTIAL: “Entendi. Tostar do outro lado por mais duzentos anos. Os santos agradecem a ligação”. E nós também.

           
CARLOS RIBEIRO / Professor da UFRB e membro da Academia de Letras da Bahia. E-mail: cribeiro@atarde.com.br