O SONHO RESISTE



Carlos Ribeiro
Jornal Bahia Norte – Abril / 2008

Em algum momento do século passado, sob a influência da psicanálise e das vanguardas, passou-se a questionar, nas artes narrativas, mais especificamente no cinema e na literatura, a existência de personagens íntegros e dignos, mesmo porque foram colocados sob suspeição os próprios conceitos de integridade e dignidade. Não foi opção intencional, mas conseqüência de uma forma muito peculiar de se olhar o mundo e o ser humano. Se a própria idéia de normalidade passou a ser um conceito flutuante e relativo, e cada ser humano uma espécie de caleidoscópio abstruso de sentimentos a pensamentos contraditórios, quando não perversos, que se entrecruzam para formar novas e novas combinações, seria ingenuidade acreditar em bandidos e mocinhos, pois que todos somos mocinhos-bandidos ou bandidos-mocinhos conforme as circunstâncias que se nos apresentem.

A profundidade psicológica, tão cara aos artistas modernos, nos remeteu, de chofre, ao lado obscuro da natureza humana, do qual emergem pulsões transgressoras. Pulsões que, nos filmes, contos e romances são representadas num elenco nada atraente de assassinos, corruptos e canalhas de todos os matizes, merecedores privilegiados da atenção do artista que se esforça desesperadamente para penetrar nas zonas de exceção da alma. Profundidade seria, então, sinônimo de perversão? Eis uma simplificação. E, sem que se percebesse a falácia, esqueceu-se que obras de arte da melhor qualidade, a exemplo dos filmes de Chaplin, são profundas no exame da alma do homem comum. A densidade da obra de arte não está, necessariamente, no terreno da negatividade; assim como uma visão positiva da vida não deve ser confundida com o otimismo de Pollyana. Eis a razão de equívocos como o de se minimizar o valor de uma bela obra como O pequeno príncipe, de Saint Exupéry.

            Mesmo sabendo que somos seres contraditórios, há, sim, em nós, sentimentos nobres que, ao serem expostos numa narrativa, tal como nas fábulas dos povos de todos os tempos e lugares, irá de alguma forma nos inspirar para outros sentimentos nobres e daí para a sabedoria, infelizmente hoje tão desacreditada.

Um exemplo dessa inspiração, tão boa e saudável, me ocorreu, recentemente, ao assistir ao musical Across the universe, da cineasta Julie Taymor, em exibição na Sala de Arte Cinema do Museu. O filme, que retrata as aventuras de um jovem inglês nos EUA, em plena efervescência dos anos 60, do psicodelismo e das lutas pelos direitos civis, reúne algumas características pouco freqüentes nesses tempos cínicos: a reiteração do sonho, da alegria e da utopia numa versão idealizada daqueles anos, aqui embalados por nada mais nada menos que 33 canções dos Beatles. Um filme que nos emociona e nos faz sentir bem e... humanos. O que, perdoem-nos os céticos, é muito bom.