ESSES NOSSOS MITOS DOURADOS 02
Carlos
Ribeiro
Jornal Bahia Norte – Março / 2008
Escrevi, na edição anterior deste jornal, sobre a releitura que alguns mitos da nossa cultura sofrem nos dias atuais. Citei o revolucionário romântico das Américas, Che Guevara e o Cinema Novo, cuja contribuição estética para a nossa cinematografia é imensa, mas cuja produção, à exceção das obras-primas de alguns pouco autores, foi super-dimensionada.
Hoje falarei de outro mito do Ocidente: o do legado de 1968, que faz agora 40 anos, período emblemático das grandes transformações ocorridas na política, nos valores, nos costumes. Transformações vistas como inegáveis conquistas da nossa cultura. Com razão: afinal, muitos avanços, relacionados a questões ecológicas, políticas, raciais e sexuais, devem a esse período criativo, imensas contribuições.
Tais avanços, entretanto, por serem propostos – e vividos – de forma plena e sem limites resultaram em problemas de extrema gravidade que se espraiam, como epidemia e das mais virulentas, no século XXI. Psicanalistas que entrevistei, há cerca de três anos, para uma reportagem sobre Lacan, não hesitaram em afirmar que a famosa frase dos estudantes franceses do maio de 68, “É proibido proibir”, tem sido perniciosa e passa a ser substituída, hoje, na agonia de uma sociedade em profunda crise de valores, por “É necessário limite”.
Quem diz isto não são reacionários religiosos ou partidários de grupos execráveis, herdeiros de ridículos integralistas e da execrável TFP, mas pessoas lúcidas e sensíveis, de mente aberta e crítica, que, no entanto, não precisam posar para as câmeras como avançadinhos, enquanto jogam o lixo doméstico para debaixo do tapete.
Como milhares de outros profissionais que lidam com usuários de drogas, psicóticos, alcoólatras e portadores de HIV, eles testemunham diariamente o sofrimento e a degradação a que estão submetidos. Denunciam a ausência de valores que, agora, precisam ser revistos e redimensionados.
O não reconhecimento disto é uma atitude hipócrita, como era a das gerações anteriores à dos movimentos libertários. De certa forma, quem mantém o lema “É proibido proibir” é hoje um reacionário, pois, na dinâmica da vida e do mundo, a vanguarda, se existe, está em outro lugar. E é preciso descobri-lo.
Os revolucionários dos 60 abriram as portas da percepção e de forças inconscientes, mas não propuseram valores que as redirecionassem. É, portanto, necessária uma revisão radical da nossa cultura, de forma que, ao contrário do que foi feito antes, não se jogue fora a água suja da bacia com a criança dentro.
Talvez não seja por acaso que um filme como Tropa de Elite tenha ganhado o Urso de Ouro como melhor filme no Festival de Berlim, a despeito de todas as críticas sobre um seu viés fascista. E que o prêmio lhe tenha sido entregue por ninguém menos que Costa-Gavras, um dos mais importantes cineastas políticos de esquerda. Preocupante, talvez? Ou, apenas, um sinal dos tempos?