ESSES NOSSOS MITOS DOURADOS
Carlos
Ribeiro
Jornal Bahia Norte – Fevereiro / 2008
Se, como dizia o Nelson Rodrigues, “toda unanimidade é burra”, há indícios de que estamos caminhando para uma sociedade mais inteligente. Será? Esta, pelo menos, é a impressão que temos com a releitura, cada dia mais freqüente, de alguns mitos intocáveis da nossa cultura.
Essa releitura pode ser também fruto da coragem que alguns intelectuais passam a ter, hoje, de mexer nos vespeiros de grupos que guardam a memória dos seus ídolos como o fazem os fundamentalistas – islâmicos ou cristãos – com seus dogmas.
Começa-se, portanto, a se colocar questões como: Che Guevara foi o grande herói romântico que está gravado no imaginário da nossa sociedade ocidental – ou um fanático que agia, muitas vezes de forma criminosa, em nome de um ideal? Ou ambas as coisas? O Cinema Novo, a despeito das obras-primas de Glauber e de algumas raras preciosidades de Nelson Pereira dos Santos (Vidas secas, Memórias do cárcere, este já um pouco fora do ciclo) não teria sido superdimensionado em sua importância estética e histórica? Pensar, por exemplo, que rios de tinta foram derramados para endeusar autores e filmes bem medíocres. E para sabotar outros que não encaixassem em seus parâmetros estéticos. Vale dizer que os cineastas desse movimento, diversamente dos seus ingênuos antecessores, souberam ocupar muito bem o espaço dos jornais e construir sua mí(s)tica. E o tão incensado ano de 1968, cujos 40 anos passam a ser comemorados neste 2008, em vários países? Era, aliás, sobre este assunto que pensava escrever quando iniciei este artigo, mas lá se foram os 2.000 toques da minha cota para este espaço.
Em tempo: Fazer uma releitura não significa negar valor ou a devida importância a quem os têm de sobra, mas procurar ver esses fenômenos com as lentes um pouco mais ajustadas. E, eis o dilema, sem dar munição aos que, no extremo da reação, podem querer negar as valiosas conquistas estéticas e políticas, o sonho e a utopia dos quais somos tão carentes nessa era de pragmatismo redutor. Mesmo porque, goste-se ou não, há um imenso fosso separando o Che dos pinochets de plantão.
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