NOSSA MISÉRIA CULTURAL


Carlos Ribeiro

Existe um cinema baiano? E da literatura baiana, quais são os principais nomes, hoje? Não me surpreenderia que, numa hipotética pesquisa, da primeira pergunta, 98% dos baianos respondessem positivamente, "sim, claro, há uma cinematografia baiana", citando Ó pai, ó, de Mônique Gardenberg, como um filme genuinamente baiano, quando, na verdade, trata-se de produção sulina - e deixassem no completo esquecimento Eu me lembro, do Edgar Navarro, este sim, integralmente baiano, na produção, na direção, na temática, nos atores, na linguagem, na expressão; ou ainda o singelo Esses moços, de José Araripe, sem falar nos diversos documentários e curtas-metragens que foram lançados, na Bahia, nos últimos vinte anos. Da segunda, a resposta seria, talvez, mais reveladora da total ignorância dos baianos em relação a seus escritores. Arrisco dizer que os mesmos 98% citariam o nome de Jorge Amado, alguns ainda de João Ubaldo (os mais bem informados) e, quiçá, da Zélia, recém falecida, tão baiana quanto o Cristo Redentor, apesar da sua longa e amorosa convivência com a boa terra.

O cinema baiano, diz o nosso crítico de cinema André Setaro, sequer existe, pois que, "para existir uma cinematografia é necessário que haja uma continuidade de produção, que filmes sejam feitos de maneira sistemática". O que, evidentemente, não ocorre aqui, onde, segundo ele, há uma total dependência dos editais governamentais, o que caracterizaria os cineastas como "mendigos da boa vontade oficial". Mendigos por dependerem, para a realização de seus filmes, de recursos vultosos que a iniciativa privada não tem o mínimo interesse de investir.

Pode-se dizer algo diferente dos nossos escritores? Afora uma ou outra exceção, de poetas e ficcionistas que conseguem publicar em editoras comerciais do sul-sudeste - as únicas que contam, efetivamente, por distribuírem os livros nacionalmente e os tornarem razoavelmente conhecidos entre os leitores -, o que resta aos demais? As coleções do Estado, importantes, mas pífias, em termo de eficácia, alguns títulos de pequenas "editoras", com as devidas aspas, e as publicações de autor, hoje mascaradas por um tratamento gráfico bem cuidado e selos criativos. Mas os escritores continuam, todos, dependentes de migalhas e, considerando a ausência de público e de leitores, eternos marginais.

Quem conhece, de fato, os filmes de Fernando Bélens, José Umberto, Póla Ribeiro, José Frazão, Walter Pinto Lima, Lázaro Faria, Tuna Espinheira e Chico Liberato (este na área da animação), entre outros cineastas? Quem, senão os vagos integrantes dos 2% acima citados, já leu algum livro de Adelice Souza, Carlos Barbosa, Renata Belmonte, Aleilton Fonseca, Aramis Ribeiro Costa, Gláucia Lemos, Dênisson Padilha Filho e Ricardo Cruz, só para citar alguns dos bons ficcionistas baianos surgidos a partir dos anos 80? Ou, dentre os poetas, de José Inácio Vieira de Melo, Cajazeira Ramos, Kátia Borges, Ângela Vilma, Douglas Almeida, João de Moraes Filho e Marcus Vinícius Rodrigues?

Que instituições culturais, por exemplo, ao longo do Litoral Norte da Bahia, já convidou escritores aí residentes, para lançar seus livros, proferir palestras ou ter uma conversa informal com alunos das redes pública e privada, e com funcionários de empresas e indústrias, pagando-lhes, é claro, uma gratificação, para demonstrar que se valoriza o seu trabalho? Mas como fazê-lo se sequer sabem que eles existem? E, se o sabem, não passa, certamente, pela cabeça das lideranças de instituições e empresas, que tenham alguma "utilidade". Não seria "útil", para uma empresa do Pólo, promover a exibição, em suas fábricas, de filmes dos nossos cineastas, remunerando-os, mesmo que com valores infinitamente mais baixos do que os que pagam para os seus badalados executivos? Por que a nova geração de empresários continua tão conservadora, medrosa, pouco criativa, ignorante dos nossos valores culturais, presa a paradigmas velhos e empoeirados, incapaz de sacudir as teias de aranha de métodos e procedimentos que nem os seus programas de qualidade conseguem disfarçar?

A insensibilidade da nossa elite econômica - eis aí uma das causas principais do que André Setaro chama de nossa "miséria cultural".