GLORIOSA CHATICE



Carlos Ribeiro
A Tarde – Opinião (03/05/08)

Em entrevista concedida ao jornal O Globo, o humorista Marcelo Madureira, do Casseta & Planeta, afirma serem os filmes de Glauber Rocha “uma merda”. A afirmação repercutiu mal e o humorista amaciou, em declaração posterior, dizendo que os filmes do cineasta baiano são “muito chatos”.
O poeta e crítico literário carioca Alexei Bueno contra-atacou. Em artigo publicado em A Tarde, disse que Madureira, embora talentoso humorista, é um “cego para cinema”. “Quem diz que Deus e o diabo na terra do sol é chato, é um cego cinematográfico, e acabou”.

Concordo e compartilho a indignação de Alexei, mas penso que podemos analisar mais alguns aspectos da questão antes de encerrá-la de forma tão definitiva. Embora concorde com ele no que se refere à genialidade de Glauber (Deus e o diabo na terra do sol é um dos melhores filmes já realizados, e acabou), admito, porém, a possibilidade de que “chatice” e genialidade podem manter um saudável concubinato. Exemplo maior disso é o opus magnum do próprio Glauber, A idade da Terra: comparada com ele, a grande maioria dos filmes, até aqueles que normalmente consideramos bons, mostram-se absolutamente triviais. O que não o impede de ser um teste para a paciência do mais entusiasmado admirador do cineasta.

O filme, poético, anti-narrativo, barroco, delirante, mas também lúcido, é, talvez, o que deva ser: um filme para poucos. Daí se estranhar a fúria do cineasta quando  perdeu os Leões de Ouro, no Festival de Veneza, em 1980, para Glória, de John Cassavetes, e Atlantic City, de Louis Malle.

Li ou ouvi, certa feita, que um crítico eminente de cinema disse que escrevia com entusiasmo sobre os chamados filmes de arte – mas que o que lhes dava prazer, realmente, era assistir aos westerns norte-americanos. Penso que é possível a alguém admirar Ford ou Hawks, e não gostar de Kurosawa, mesmo o achando um gênio! Apreciar, com deleite, os livros de Faulkner, e torcer o nariz para Saramago. É possível, como Tolstói, detestar Shakespeare e, quem sabe, achar Deus e o diabo chato sem que, por isto, seja condenado à cegueira eterna.

Nos meus tempos de estudante, assisti a diversos filmes “de arte”, insuportavelmente “chatos”, mas que, após ter perseverado na sua apreciação, passavam, como se por milagre, a ficar gravados para todo o sempre na minha sensibilidade como obras-primas incontestáveis. Há, portanto, que se relativizar a chatice, que diz menos do objeto de chateação do que do próprio chateado. Da sua sensibilidade e percepção. Da sua maturidade.

O que nos assusta não é a opinião do Casseta Madureira, mas do que ela, talvez, seja sintoma: de que, daqui a pouco, tudo o que, no cinema, não obedecer à estética do videoclipe, com seus cortes sucessivos e ritmo alucinante, seja chato. E Glauber, lançado numa vala comum ao lado de Bergman, mas também Lean; de Truffaut, mas também Scorcese, perderá, com seus planos-seqüências interminavelmente longos, o privilégio da gloriosa chatice.

CARLOS RIBEIRO / Professor da UFRB e membro da Academia de Letras da Bahia. E-mail: cribeiro@atarde.com.br