FLORA, EVE E GLÁUBER



Jornal Bahia Norte
Janeiro/2009

           É mesmo muito difícil fazer qualquer coisa nesta época do ano. Não me refiro ao período das festas de fim de ano, de começo do ano, das lavagens das 365 igrejas da Bahia ou ao período pré-carnavalesco, quando, bem ou mal, as pessoas se encontram e olham umas para as outras. Refiro-me ao fatídico período no qual a novela das oito, que há muitos anos começa às nove, encontra-se em suas “últimas semanas”. E no qual as pessoas só têm olhos para a telinha da TV.

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Foi, portanto, num imperdoável erro de cálculo que programei, na última sexta-feira de 2008, a exibição, entre amigos, do clássico A malvada (All about Eve, 1950), de Joseph L. Mankiewicz. Estranhei que apenas seis gatos pingados comparecessem. Só depois caí em mim de que a grande maioria dos cinéfilos preferiu ver a perversa Flora, da novela A favorita, em lugar da malvada Eve. Malvadeza pouca é bobagem.

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Mal sabiam, os cinéfilos infiéis, que assistir a malvada Eve, na excelente interpretação de Anne Baxter, nos ajuda a redimensionar a atuação de Patrícia Pilar, que, juntamente com o autor da novela, João Emanuel Carneiro, parece ter ido beber naquela fonte para compor a malévola personagem. Lá está, com todos os gestos, nas imagens do filme, a alternância entre a expressão angelical e o olhar duro de um demônio; a determinação em alcançar objetivos escusos, passando por cima dos seus benfeitores; os recalques, os complexos, a ambição desmedida. Só que, evidentemente, livre dos estereótipos indefectíveis dos folhetins televisivos.

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Imagine agora você, caro leitor, quem deixaria de ver A favorita e se despencar, à noite, para o centro da cidade, para assistir a O dragão da maldade contra o santo guerreiro, de Glauber Rocha? O filme está passando no recém-criado Espaço Unibanco de Cinema Glauber Rocha, justamente onde ficava o cine Guarany, na Praça Castro Alves. Pois lá estávamos: eu, infiel noveleiro e mais dois gatos pingadíssimos.
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Ver o poema glauberiano em cópia restaurada, na telona, foi um presente especial! A criação desse espaço é, sem dúvida, um dos grandes destaques do ano que findou: pelo bom gosto do projeto arquitetônico, que inclui os belíssimos painéis de Carybé, restaurados por João Magalhães, que decoravam o cine Guarany, de saudosa memória; pela localização, contribuindo para a revitalização do Centro Histórico; pela qualidade da projeção e pelo conforto em suas quatro salas, com 630 lugares ao todo; pelo atendimento cordial dos funcionários; pela bela vista na cobertura; pela livraria, com excelente acervo literário e cinematográfico, e até mesmo por um pastelzinho integral de ricota bem gostoso que é vendido na cafeteria.

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Talvez possamos, agora, ressuscitar uma prática muito comum, nos cinemas de Salvador, até o início dos anos 80: as reapresentações de grandes filmes do passado. O grande problema, nesse sentido, nos informa o coordenador do espaço, Cláudio Marques, é a dificuldade de conseguir as cópias dos filmes. Mas, garantiu-me ele, a intenção é a de reservar uma ou duas das seis salas, para filmes de boa qualidade artística, não amarrada pelas engrenagens da indústria cinematográfica norte-americana.
Iniciamos 2009 com essa proposta – e não é essa uma grande promessa? 
            Aguardemos...