ESPERANÇA PARA OS
SEM-TELA



Carlos Ribeiro
Jornal Bahia Norte – Janeiro / 2008

Diagnóstico feito pelo IBGE em parceria com o Ministério da Cultura revela que 87% dos brasileiros nunca foram ao cinema. A este dado, acrescentam-se outros não menos alarmantes: 92% jamais colocaram os pés num museu e 78% nunca assistiram a espetáculos de dança. A escassez de bibliotecas públicas, teatros e espaços culturais nos bairros periféricos, nas cidades do interior e nas regiões metropolitanas dão a idéia do processo de exclusão cultural a que está submetida a maioria da população.

Esses dados são divulgados num momento em que o MinC diz estar disposto a reverter esse quadro, garantindo o acesso da população aos bens simbólicos, promovendo a inclusão social por meio da Cultura. No que se refere à linguagem audiovisual, pensamos em como se dará esta inclusão: há a possibilidade de se retomar os cinemas de bairro, tão numerosos até meados dos anos 80, ou os tradicionais “poeiras” do Centro?  


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Para o crítico de cinema André Setaro, a solução seria a construção, pelo governo, de casas que exibissem filmes a preços baixos. Mais do que possibilitar o acesso às casas de exibição, é necessário, segundo ele, criar uma cultura cinematográfica, o que implica numa administração racional desses espaços, garantindo a presença do público com uma programação que alie qualidade com popularidade. “Se as pessoas não aprenderem a gostar de cinema na infância, dificilmente terão interesse quando adultas”, afirma. E perguntamos: há interesse, mínimo que seja, das prefeituras do litoral norte nesse sentido? Existem propostas efetivas para essa inclusão? Caso existam, não é esta a hora de tirá-las das gavetas?
 

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A carência de acesso a filmes que possibilitem uma cultura cinematográfica não é apenas do “povão”. O acesso a clássicos em tela grande é quase impossível, a não ser por iniciativas escassas e isoladas, que merecem ser aplaudidas. Exemplo disso foi a exibição, em outubro, no Cinemark Salvador, sempre às 15h, de alguns títulos do cineasta John Cassavetes. Em novembro exibiu quatro documentários de Eduardo Coutinho, autor do ótimo Edifício Master, e prossegue este mês com Baixio das bestas, de Cláudio Assis. Espera-se que a administração do cinema dê seguimento à proposta de exibir clássicos antigos, trazendo-nos a esperança de rever, em tela grande, obras de grandes diretores do passado. E que proporcione um horário alternativo para os cinéfilos que trabalham e que não podem se dar ao luxo de ir ao cinema no meio da tarde.


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Na verdade, excetuando-se a ausência em nossas telas de grandes filmes do passado, temos hoje a possibilidade de assistir excelentes títulos da cinematografia contemporânea de vários países, inclusive do Brasil, fora do circuito hollywoodiano. É altamente louvável, nesse sentido, o trabalho realizado pelo circuito alternativo formado pelo cinema do Museu, salas de arte MAM e Cine XIV, Ufba, Aliança Francesa e pela Sala Walter da Silveira. Mas, todas elas situadas no miolo da cidade, entre a Barra, a Avenida Contorno e o Pelourinho, deixa grande parte da população a ver navios. Considerando a expansão da cidade em direção ao litoral norte, não é frustrante que inexistam salas do gênero, por exemplo, numa localidade como a de Vilas do Atlântico? Fica a sugestão.

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Enquanto os clássicos não voltam à tela grande, consolemo-nos com as excelentes opções que dispomos, hoje, em dvd, inclusive para a compra de filmes a preços bem maneiros em alguns magazines da cidade. Já incorporei à minha devedoteca – e assisti com deleite – diversos títulos, dentre os quais destaco, hoje, quatro westerns: Rastros de ódio, de John Ford; Shane, de George Stevens (conhecido, em português, pelo infame título de Os brutos também amam); A face oculta, dirigido e interpretado por Marlon Brando, e Estigma da crueldade, de Henry King.  Tem muito mais, mas fica para outra oportunidade.