DE PRÊMIOS E CRITÉRIOS
Carlos
Ribeiro
A Tarde – Opinião (30/03/08)
É reconhecida por todos a importância de concursos e prêmios voltados para a área artística e cultural. Iniciativas que devem ser incentivadas, mas também questionadas quanto aos seus critérios de aferição e escolha. É fundamental que se saiba, exatamente, através de pareceres bem fundamentados, por que este ou aquele livro, peça, roteiro, show etc. foi escolhido em detrimento de outros.
Essa questão me veio à mente ao saber que a comissão escolhida para indicar as peças que concorrerão ao Prêmio Braskem de Teatro Infantil 2007, dispondo de quatro indicações, elegeu apenas três espetáculos (Áfricas, Ciranda do medo e Pedro e a cobra de fogo) como detentores das qualidades mínimas para a indicação. Em outras palavras, apenas três peças, durante um ano inteiro, merecem concorrer ao prêmio – o que, convenhamos, é um índice muito baixo, embora não improvável nesses tempos de vacas magras. Nada surpreendente não fosse a existência de, pelo menos, mais um espetáculo de inegável qualidade artística: o musical infanto-juvenil O fantasma de Canterville, baseado num conto de Oscar Wilde, adaptado e dirigido por Andréa Elia, com direção musical de Joaquim Carvalho.
Que razão justificaria tal exclusão? Considerando a excelente qualidade da peça (duvido que algum dos jurados conteste esta afirmação) seria obrigado a especular, embora ache tal possibilidade absurda, que O fantasma de Canterville teria sido excluído por não ser considerado uma peça infantil. Nesse caso, seria interessante saber exatamente o que a comissão julgadora entende por “peça infantil”, ou do que se entende por “criança”, sobretudo neste início do século XXI quando muitos pensam que os pequenos vivem ainda no tempo da vovozinha.
E, supondo-se ter sido esse o motivo, surgiria uma questão um tanto complicada: como não enquadrar na categoria “infantil” ou “infanto-juvenil” uma peça que galvanizou a atenção de crianças de todas as idades, que lotaram a Sala do Coro do TCA durante a exibição da qual fui testemunha e que provavelmente deve ter acontecido em outras apresentações? Crianças de até dois anos de idade que não despregaram um minuto os olhos do espetáculo, com corações e mentes conquistados pela interpretação cativante dos atores, pela concepção cênica, incluindo o excelente figurino, texto, roteiro, direção musical, timing e mise-en-scéne?
A propósito disto, basta ver o que disse a jornalista Isabel Vilela, numa troca de e-mail entre admiradores do trabalho desenvolvido por Andréa e que incluía, entre outros, o ator Jackson Costa: “Fui ver a peça acompanhada de dois críticos radicais (duas crianças, 4 e 8 anos), que amaram. Ficaram concentradas com o suspense, fizeram perguntas e deram boas risadas.”
Caso a comissão não queira esclarecer os critérios, proponho, para manter um mínimo de coerência, que digam claramente às crianças que é proibido rir e gostar da peça. E que se tomem todas as medidas para que elas se comportem adequadamente. Pelo menos, até que cresçam.
CARLOS RIBEIRO / Professor da UFRB e membro da Academia de Letras da Bahia. E-mail: cribeiro@atarde.com.br