DE FEIJÕES E MANIÇOBA


Carlos Ribeiro

A cidade de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, guarda uma paisagem única: os casarios coloniais, o entra-e-sai das pessoas nas ruas recortadas entre morros, a antiga ponte de ferro do tempo do Império ligando duas cidades, o confronto diuturno com os casarios coloridos de São Félix, no outro lado das águas calmas do Paraguaçu. De fato, mesmo ao olhar mais apressado, Cachoeira deixa registrada, nas retinas do visitante, sua marca inconfundível. Mas, ao sol forte de uma quarta-feira de junho, próximo do meio-dia, o movimento dos moradores, na Praça 25 de março, poderia ser o mesmo de qualquer outra cidade do interior baiano.

Pensei exatamente isto quando, em frente ao espaço cultural Pouso da Palavra, dei alguns passos em direção ao Convento Nossa Senhora do Carmo. Tinha a intenção de comer alguma iguaria especial, dentre as tantas que dão fama merecida à culinária do Recôncavo baiano.

Tinha em mente uma infinidade de pratos, quase todos de origem africana, que estimulavam, com seus temperos picantes, as mais preguiçosas glândulas salivares: as moquecas de maturi, peixe e mariscos; petitingas torradas; abarás, vatapás, carurus, efós, e o seu mais cobiçado prato: a maniçoba, tanto melhor quanto menos gordurosa e mais apimentada. Mas havia também o filé, os camarões grelhados...

Atravessava, justamente, a Praça 25 de março, quando ouvi destacar-se uma frase, gorda, quase palpável, na manhã luminosa.

- Estou sentindo o cheiro do feijão!

Nunca, em toda a minha vida, tinha ouvido uma frase dita, assim, com tanto gosto. Olhei em volta para identificar de onde viera, mas não consegui localizar sua origem. Poderia ser qualquer uma das pessoas que circulavam ali, naquele momento: um homem de andar gingado e sorriso largo, que acenava para outros três, na extremidade do largo, à esquerda; o velho de chapéu de feltro marrom e de calça amarela, que guiava um carroção; o rapazote de bicicleta que logo sumia pelo beco, em frente ao Convento que era também o principal hotel da região.

A frase, solta, assim, no ar, sem qualquer aviso, era como uma legenda para as expressões de todas aquelas pessoas. Era evidente que todas elas retornavam de seus afazeres em direção às suas casas, para o almoço. E quase podia sentir o cheiro do feijão exalando sobre os telhados dos antigos casarões azuis, amarelos, vermelhos, rosas e de tantas outras cores.

Sentei-me na escadaria do Convento, numa pequena área de sombra, e deixei-me entregue às sensações que a paisagem me proporcionava: o colorido suave dos telhados, das paredes e das ruas; a mansidão dos passantes; o ritmo lento dos burros e das bicicletas que circulavam, sem pressa, apesar mesmo do apelo do feijão que cheirava, certamente, em todas aquelas casas, embora ainda não se tivesse apresentado ao meu olfato.

Lembrei-me, então, de uma entrevista que li, há vários anos, numa revista semanal, com o conceituado chef de um restaurante francês, em São Paulo. Ele falava sobre as iguarias caras e sofisticadas que preparava com tanto esmero, quando, o repórter, a queima-roupa, perguntou: qual era o prato que ele mais gostava? Não hesitou em dizer: o melhor entre os melhores, the best of the best, era a velha e saudável comida caseira: arroz, feijão, carne e salada. Não qualquer uma, mas a que era preparada por sua mulher.

Nada surpreendente, dirão os especialistas, se considerarmos que os pratos especiais são para momentos especiais; que os soteropolitanos, ao contrário do que pensam os turistas, não comem caruru no almoço todos os dias; que os ingredientes de uma boa maniçoba, bem como o tempo, os cuidados e o conhecimento necessários para prepará-la, são, digamos, inconciliáveis com as condições econômicas e o ritmo de vida da maioria dos mortais, e que, afinal, fora do horário de trabalho, não seria ele, o entrevistado, quem iria fazer a sua própria comida... mas, de repente, comecei a sentir o bendito cheiro, e, como se saindo do nada, um anjo torto, desses que vivem na sombra, disse, baixinho, aos meus ouvidos: vai, Carlos... comer um bom prato de feijão.

E fui.