DE DORES E FINGIDORES
Carlos
Ribeiro
Já esperava ter visto de tudo no triste caso da menina Isabella: o crime inusitado, o sensacionalismo em torno dele, a turba sedenta de sangue querendo linchar o pai e a madrasta, apresentadores de telejornais disputando cada minuto de audiência, advogados manipulando informações, pessoas aproveitando-se dos fatos para justificar preconceitos e posições as mais estapafúrdias... mas, confesso, nada me causou pior impressão do que a entrevista concedida ao Fantástico pelos principais suspeitos do caso.
Tive que fazer um exame mais minucioso para entender o constrangimento e o mal estar provocado em mim pela entrevista. Seria a expressão pouco convincente da “dor” reiterada, ad nauseam, pelo casal? Ou o choro monocórdio da madrasta? Seria a artificialidade gritante das expressões e gestos? Ou o vazio absoluto dos argumentos quando confrontados com os indícios técnicos levantados na perícia? Seria o tom farsesco da própria reportagem? Ou a forma como foi prolongada, em dois longos blocos do programa de maior audiência da TV brasileira? (Quase podia ouvir as moedas tilintando ao fundo).
Era, enfim, um mal estar ético ou estético? De repente, ali estava, diante dos nossos olhos, uma peça de jornalismo que pouco tinha de jornalística: nada acrescentava de substancial aos acontecimentos. Era como um material bruto que não passasse por uma edição eliminando-lhe os “tempos mortos”. Tudo era redundante, superficial, repetitivo, em sua maioria dispensável, exemplo mais bem acabado de uma anti-informação que mal mereceria, em circunstâncias normais, alguns segundos de exposição. E que, no entanto, se prolongou por cerca de meia hora e foi reproduzida incansavelmente nos dias seguintes, inclusive pelas outras emissoras.
A entrevista sugere um modelo de reportagem que, embora não seja absolutamente novo ou inédito, ganha aqui tal proporção que merece ser melhor analisada: aquela cuja edição deveria ser entregue, não a jornalistas, mas a especialistas do setor de publicidade. Que, pensando bem, devem ter também alguma formação em psicologia – e algum conhecimento das teorias de “gênios” da área de psicologia de massas. (O leitor pensou em Joseph Goebbels? Não chegamos a tanto.)
Há, nos padrões éticos de sociedades ditas civilizadas, preceitos que indicam ser repugnante obter vantagens da dor alheia. Cabe, portanto, aos meios de comunicação, manter um equilíbrio no trato de questões de maior repercussão, para os quais há uma demanda: é necessário veiculá-los, mas que se o faça com a devida elegância. Mesmo que sem haver correspondência entre aparência e essência.
Mas, não nos iludamos: se a entrevista do Fantástico diz muito pouco sobre o caso em si em termos de informação jornalística, ela expressa, nos elementos que a formam (as palavras, os gestos, as perguntas, a duração, a postura grave dos apresentadores, a sua própria veiculação e audiência), muito sobre a própria sociedade na qual vivemos. Uma sociedade na qual é cada vez menos discernível a dor que fingimos da que deveras sentimos.
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