RECEITA NORDESTINA



Por Carlos Ribeiro
Revista Bahia Chef – Maio-junho / 2008

Em primeiro lugar, um sol de verão, luminoso. Um céu, de preferência azul claro, com leves tons alaranjados no poente. Céu de sertão, ou, se não o encontrar à mão, aquele céu brilhante do litoral, que se vê, entre sete e oito da manhã, ali, por volta do Paralelo 12. Polvilhe nuvens, a gosto. Evite excessos, que podem resultar em chuvas temporãs.

            Seja cuidadoso com os ventos. Escolha brisas – e deixe-as soprar, de leve, ao final da tarde, quando a faina do dia for se escoando e a esperança de uma noite cálida, mas gentil, manifestar-se nos rostos cansados. Deixe-as chegar, aos poucos, em lufadas suaves, trazendo notícias boas do passado ou daquele futuro que se deixa entrever nas frestas do tempo.

            Evite o vento sul, imprevisível como os cavalos selvagens da remota Trácia. Ou, pior, os das Alagoas, onde o macaco avoa. Ele pode derrubar castelos de sonhos construídos distraidamente sobre a areia.

            Recorte o litoral em camadas sucessivas. Coloque dunas à vontade, em fartas colheradas e salpique coqueiros, entremeados de pés de caju e tamarindos. Os coqueiros, não esqueça, devem ter cocos verdes com água doce e carne mole para se comer de colher, além de longas cabeleiras que dancem ao vento, incansavelmente, ao  longo das horas e das eras.

            Não evite a lua. Ao contrário, deixe-a surgir, majestosa, no horizonte, enquanto o sol mergulha entre clarões vermelhos, como gemas de ovos de quintal. Enfeite a noite com vozes de crianças e latidos; cantos de cigarras e ruídos distantes de motores. Empurre-a com uma colher de pau até que as últimas lâmpadas das casas se apaguem. E, já em plena madrugada, acrescente algumas pitadas de paixão. Evite as mais fortes, que podem desandar a mistura e pôr tudo a perder.

            Quebre, então, a casca da noite e deixe que a manhã se derrame sobre a terra. Que a luz do sol reacenda as esperanças, mas não exagere em promessas, para que não penetre as vãs. Enfeite o horizonte com reflexos azulados e ponha tons de amarelo sobre os telhados e nas janelas. Eleve, lentamente, o sol – e, enquanto ele brilhar, no céu azul claro, com leves tons alaranjados, mantenha batalhões de crianças fardadas nas salas aulas, pois a elas pertence  o futuro, mas não as  impeça  de sonhar com bonecas de pano e carrinhos de rolimã. (Desculpe, esta é uma receita muito antiga. Podem ser barbies  e computadores, embora estes não tenham o mesmo sabor daqueles.) 

            Se estiver na costa, polvilhe a manhã com a simpatia dos vendedores de coco e das vendedoras de acarajés e quitutes; se no sertão, com o aboio dos vaqueiros e a habilidade das rendeiras. Não esqueça as baleias, vindas dos mares gelados do Sul, e as boiadas do Além São Francisco. E, quando o sol estiver a pino, espalhe, em  toda a superfície, extensas sombras de jaqueiras e cajueiros frondosos nas quais se possa estender uma esteira, e nela poder servir uma moqueca de peixe e de mariscos, com farofa no azeite de dendê, ou, se preferir,  um cozido, com carne de sertão, banana da terra e verduras à farta.

Após a refeição, não dispense a esteira; antes,deite-se nela, de preferência com o mar à vista, e deixe que metade da tarde se vá no seu mais precioso sonho. E, já desperto, quando o sol mergulhar no horizonte, entre os reflexos alaranjados do poente,  coloque alegria em todos os  lares, e, com toda a família reunida à mesa, sirva, enfim, a memória deste manjar, com tudo o que a terra possa fornecer: o milho, na forma de cuscuz (com leite de coco), mingaus, beijus e canjicas; o  trigo, em  pães cacetinhos torrados no forno, com manteiga de garrafa; mel de engenho, inhame e aipim;  o charque com ovos de quintal;  e o café quentinho como seus mais cálidos desejos.

Coma moderadamente.