ARTIGO SOBRE NATIVO



Carlos Ribeiro
A Tarde – Opinião (17/07/07)

            O assassinato de Antonio Conceição, presidente da ONG Nativos de Itapuã, não se restringe a um ato de brutalidade, infelizmente tão comum em nossos dias. Embora não o pretendesse, na simplicidade característica de um homem que não dispunha de títulos, diplomas e privilégios, Antonio era portador de uma reivindicação respaldada por grande parcela da comunidade de Itapuã e por todas as pessoas com bom senso, aliadas na incansável e até hoje inglória luta em defesa de um dos mais importantes patrimônios naturais do nosso estado: o Parque Metropolitano do Abaeté.

            Na condição de ex-militante, portador dessa reivindicação, tão urgente e necessária, sob o efeito dos tiros dos seus executores, Antonio passa a tornar-se símbolo da defesa do Abaeté. Não importa, no caso, se o interesse imediato dos seus executores tenha ou não a ver com a preservação daquela área. Mesmo porque o conceito de meio ambiente não se restringe aos ecossistemas naturais, à bela paisagem de dunas e restingas, mas também ao entorno social, hoje tão degradado.

O combate ao tráfico na Baixa do Soronha, alvo de constantes ações policiais, bem como toda a polêmica em torno da retirada do Parque do circuito do Carnaval, fruto do trabalho da ONG e que desagradou a tantos comerciantes, integram, com a preservação das dunas e lagoas, uma mesma candente e explosiva questão.

A morte de Antonio, portanto, não acontece no vácuo. Ela existe num contexto de abandono e de omissão ao qual o Parque do Abaeté foi relegado nos últimos trinta anos. Ela passa por um calamitoso processo de expansão urbana baseada numa falsa noção de progresso, que nunca foi devidamente administrada pelo poder público. O resultado disto salta aos olhos. Basta ver como vivia a população nativa de Itapuã e de todas as demais localidades litorâneas do nosso estado, e como elas vivem hoje. Antes a pobreza, sim, mas na qual se podia viver com alegria e dignidade. Hoje a miséria, a degradação, a desagregação das famílias, a perda de valores fundamentais, como o respeito ao semelhante e à vida. O resultado é visível no bairro, no qual prolifera o roubo, o assalto à mão armada, o vandalismo e a delinqüência.

Como um dos diretores da Associação dos Moradores de Itapuã (AMI), no final dos anos 80, acompanhei de perto o processo de descaracterização do bairro. O que me permite atestar a co-responsabilidade do Estado nesse episódio, que atinge todos nós, ou, pelo menos, aqueles que ainda possuem um mínimo de humanidade. 

Espera-se, portanto, que o atual governo salde a dívida antiga, cujas vísceras são expostas neste caso escabroso. Desvendar esse crime, e punir rigorosamente os culpados; amparar a família dele e propiciar todas as condições para que prossiga o trabalho sócio-ambiental de Antonio, com a ONG Nativos e com o projeto Meninos de Itapuã, é um dever e uma satisfação que precisam ser dadas a todos nós, habitantes desta cidade. Como símbolo de defesa do Abaeté, Antonio passa a ser símbolo também da nossa esperança, ou do pouco que resta dela.

CARLOS RIBEIRO / Professor da UFRB e membro da Academia de Letras da Bahia. E-mail: cribeiro@atarde.com.br