A DOR ESQUECIDA



Carlos Ribeiro

Há uma grande elisão na nossa história, uma ausência estranhamente presente no conjunto do nosso capital artístico e cultural. A grande dor, aquela que é mais profundamente sentida, quase sempre é esquecida nos dramas que ocupam as páginas dos jornais e dos livros, as telas dos cinemas, os versos dos poemas e das canções. Refiro-me ao sofrimento da perda do filho pela mãe amorosa (sim, porque há as mães desamorosas, cada dia mais freqüentes numa sociedade em que os laços básicos de afeição parecem estar cada dia mais frouxos).

O meu improvável leitor me corrigirá lembrando, não sem alguma indignação, a figura exponencial de Nossa Senhora, Maria, Mãe dos homens, chorando a dor do Jesus crucificado e suas inúmeras representações nas artes desde há mais de dois mil anos. E haverá, provavelmente, imagens equivalentes em outras culturas, mitos e religiões. No outro extremo do binômio amor-ódio, não seria a maior tragédia de Medéia o sacrifício dos seus próprios filhos - que significativamente ela fez questão de sepultar no bosque sagrado de Hera Acréia, deusa protetora das Alturas, para que seus túmulos não fossem violados - em resposta à traição de Jasão? Também nela e no seu monstruoso ato, não há a profunda dor da mãe?

A imagem de Maria e sua dor, a Mater dolorosa, é um dos arquétipos mais poderosos de toda a história humana. Não há dúvida disso. No mundo real, está muito bem representado nas figuras emblemáticas das Mães da Praça de Maio, na Argentina - que de suas dores particulares, pelos filhos desaparecidos pela ditadura militar, ampliaram sua dor para todos os filhos do mundo. Mas que, repito, é freqüentemente esquecida, talvez por que sua dor seja por demais óbvia, por demais natural, como uma árvore, ou uma pedra. Seria redundante, talvez, lembrá-la.

É, portanto, uma dor, a Grande Dor, que não é dita, que não é representada, mas que está presente, sempre, por trás de todos os dramas narrados. No herói que parte para realizar seus grandes feitos, expondo-se a tremendos perigos; no pistoleiro que duela numa rua poeirenta do Oeste americano; no navegador que atravessa os mares em busca do Eldorado; no emigrante que rumina a sua solidão na noite de uma grande cidade; na jovem que se prostitui num motel; no guerrilheiro que morre, orgulhoso por sua Grande Causa Humanitária, diante de um pelotão de fuzilamento; no soldado que parte para a guerra; no astronauta que se lança ao imponderável do Cosmos; no homem comum que míngua na sarjeta; no bandido e no mocinho; no virtuoso e no pecador - neles, por eles, sobre eles, por trás deles há sempre a dor, mais aguda, mais impotente da mãe, e que não é contada.

Veja, improvável leitor, que por apenas lembrá-la já beiro a pieguice e corro o risco de afastar os leitores mais exigentes. Mesmo porque, se todos os filhos pensarem, mesmo, conscientemente, em suas mães, jamais se lançariam ao grande mar da vida, e tudo findaria: as conquistas, o heroísmo, as artes, a literatura, a própria história. Tudo retornaria ao útero original. Pois que, ao colocar uma criança no mundo, a mãe dá o primeiro passo para perdê-lo. Por isso, correndo o risco de parecer banal, ouso dizer que o único e verdadeiro "herói" é esse coração materno que sofre, em silêncio, por trás dos grandes feitos e de suas implacáveis conseqüências, à margem da história contada. Mesmo porque nada pode alcançá-lo. Mesmo porque representá-lo seria algo que não suportaríamos.

Lembro-me de uma longa reportagem que li numa dessas revistas semanais sobre o drama das mães de traficantes nos morros do Rio de Janeiro. A única que vi, sobre o tema, nesse infindável desfiar de crimes e atrocidades. A repórter (sim, a reportagem foi escrita por uma mulher) relatava cruamente, mas com grande sensibilidade, a tragédia dessas mulheres que faziam o inimaginável para afastar seus filhos do vício, das más companhias, do roubo, do tráfico, do crime, da morte. Inutilmente, em sua grande maioria.

Aqui, sentado diante do computador, no meu escritório, olho para os romances, novelas e contos que tenho na estante; olho para a pilha de jornais e revistas, e vejo quantas histórias não contadas cada um deles tem.

P. S. Uma boa tentativa de representar o drama da Mater dolorosa, em sua versão pós-moderna e demasiado humana, é o belo filme Linha de passe, de Walter Salles, em exibição nos nossos cinemas. Na minha modesta opinião, um dos grandes filmes brasileiros de todos os tempos ao lado do magnífico Ensaio sobre a cegueira, de Fernando Meireles. Corra já para o cinema, e assista-os!