UMA REIVINDICAÇÃO URGENTE

Milton Santos, talvez o último dos nossos pensadores radicais, fala sobre a perversidade da globalização, fundada na tirania da informação e do dinheiro, na competitividade, na confusão dos espíritos e na violência estrutural. Perversidade que permitiu, em nossa triste Bahia, sobretudo nas quatro últimas décadas, com a cumplicidade do Estado, ou melhor, capitaneado por ele, a expropriação do que o nosso povo tinha de mais belo. Não me refiro apenas à natureza pródiga e à tranqüilidade de poder caminhar pelas ruas sem medo de morrer, mas de todo um extraordinário acervo de costumes, festas, canções, tradições que configuravam uma cultura singular, trocada no mercado dos valores escusos.

Um dos exemplos mais lamentáveis desse perverso modelo de desenvolvimento é o bairro de Itapuã. Até bem pouco tempo, uma das localidades mais belas e aprazíveis de Salvador, pedaço privilegiado de terra no qual natureza e cultura se integravam, de forma harmônica, não foram necessárias mais do que duas décadas para que o paraíso se degradasse, ao ponto de sua população viver num constante estado de tensão assaltada por ameaças de toda ordem.

Na terra onde as pessoas dormiam com portas e janelas abertas, multiplicam-se grades, trancas, muros e cães ferozes. As residências são substituídas por casas comerciais que se proliferam desordenadamente. As dunas, quintais, brejos e praias são invadidos por condomínios residenciais, frutos de um calamitoso processo de expansão urbana. E, num caminho que não parece ter retorno, a qualidade de vida se degrada, num ritmo cada vez mais acelerado. O resultado é visível no bairro, no qual prolifera o roubo, o assalto à mão armada, o vandalismo e a delinqüência.

No dia 9 de julho, esse processo de degradação chegou ao ponto mais grave, com o assassinato do ambientalista e presidente da ONG Nativos de Itapuã, Antonio Conceição Reis. Defensor intransigente da integridade sócio-ambiental do o Parque Metropolitano do Abaeté, e principal responsável pela preservação do manguezal do rio Passa Vaca, em Patamares, ele foi executado, em frente à sua casa, num contexto confuso, que envolve desde o interesse contrariado dos comerciantes locais, prejudicados pela ação de Antonio no sentido de impedir a realização do Carnaval naquela área, até a ação arbitrária de policiais civis que, numa batida na Baixa do Soronha, conhecido reduto de traficantes, teriam invadido a casa do ambientalista, e por ele denunciados à justiça.

Antonio era portador de uma reivindicação urgente e necessária: a da preservação de um extraordinário ecossistema de dunas, de fama internacional e de uma cultura rica, cujo substrato eram as atividades das lavadeiras e pescadores. Com sua morte, sob o efeito dos tiros dos seus executores, Antonio passa a tornar-se símbolo da defesa do Abaeté. Cabe, agora, ao Estado , à comunidade de Itapuã e a todos os que atuam na defesa do meio ambiente, dar continuidade ao seu trabalho.




Carlos Ribeiro / Jornalista e Escritor
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