REESCREVENDO A HISTÓRIA

Descobertas arqueológicas revelam novo painel de ocupação do Litoral Norte e mostram que e a região já era habitada há cerca de 1390 anos a. C.

JORNAL LITORAL NORTE
Número 68 - 1998

Descobertas arqueológicas feitas na área da Fazenda Odebrecht, em Sauípe, trouxeram à tona “um amplo e intenso panorama de sucessivos cenários de ocupação do Litoral Norte da Bahia e que remonta há 4 mil anos!”, conforme definição do arqueólogo paulista Paulo Zanettini, que coordena as pesquisas arqueológicas na área juntamente com a Professora Erika Gonzalez. Zanettini já é conhecido na Bahia pelas pesquisas que realizou no sertão sobre Canudos; ele é, inclusive, autor do livro Arqueologia Histórica de Canudos (esgotado), publicado pela Universidade do Estado da Bahia (CEEC-UNEB-Seplantec), em 1996.

Agora, o arqueólogo nos surpreende com outras descobertas . “Identificamos vestígios da presença de grupos indígenas caçadores e coletores que estiveram presentes na região de Sauípe, segundo datações obtidas através do teste radiocarbônico do C14, feitas nos Estados Unidos, há cerca de 1390 anos antes de Cristo”, diz ele. Zanettini refere-se ainda a outros três grupos identificados: um deles entre os anos 10 e 130 da nossa era (séculos I e II), também de caçadores e coletores, mas que já começavam a adotar a cerâmica em seu repertório de artefatos; outro entre os séculos VIII e XIII, que dispunham de uma urna funerária, cachimbos e primeiros indícios de produtos cultivados; e finalmente os nossos velhos conhecidos aborígenes da História do Brasil, que ocupavam a região à época do “Descobrimento”.

Outra descoberta revolucionária é a de uma pequena peça com inscrições simbólicas (“tablita”), que “talvez seja vestígio de uma pré-escrita inédita nas Américas, prova de que os índios estavam caminhando para uma sociedade mais complexa e que foi interrompida pela ação do colonizador”.

As explorações revelam uma maior importância da região de Sauípe, que, de acordo com Zanettini, “sempre foi vista pela historiografia oficial, após o declínio dos Ávilas, como uma região periférica, sem história”. Há indícios na tradição oral, em Vila Sauípe, de ter existido ali um canal de pedras. “O canal leva a algum lugar? Onde? Essas são algumas respostas que pretendemos obter”. O último grande fluxo, antes da atual fase de expansão da cidade de Salvador para o Litoral Norte, se deu com a chegada para a região de um grande número de escravos libertos e com a ocupação da área pelos caiçaras. “Sauípe vai representar um importante marco do conhecimento do passado do homem pré-histórico baiano e da própria história baiana”, conclui Zanettini.


ENTREVISTA: PAULO ZANETTINI
“Precisamos integrar essas descobertas à comunidade”

LITORAL NORTE - Qual a importância das descobertas arqueológicas feitas na região de Sauípe e que conclusões se pode tirar delas?

ZANETTINI – A importância é grande. Elas fazem a história de Sauípe e do Brasil recuar muito no tempo. Está na hora de questionarmos essa idéia de nação jovem, sobretudo com a aproximação das comemorações do Descobrimento. O Homem ocupa Sauípe há milhares de anos. Inclusive, a aldeia Tupi-guarani encontrada às margens da Linha Verde, deve ter assistido à passagem da esquadra de Cabral ao largo, no horizonte. Claro que isso é uma brincadeira! Porém, encontramos um sítio que foi datado do ano de 1500, através da técnica do Carbono 14, no Laboratório Beta Analytic, nos EUA. Se não viram Cabral, certamente travaram contato com os primeiros colonizadores portugueses.

LITORAL NORTE – Este jornal realiza uma série de reportagens sobre os rios do Litoral Norte. De que forma ele pode contribuir para esses estudos?
ZANETTINI - Para você ter uma idéia, os arqueólogos Valentin Calderon e Ivan Dórea Soares, este integrante da equipe atual, localizaram há 30 anos um cemitério indígena rio Sauípe adentro, onde foram retiradas dezenas de urnas funerárias. Há muito há ser descoberto na região de Sauípe. Em nossa última etapa de campo, o Sr. Genésio, descendente de antigos moradores da vila forneceu pistas que talvez nos conduzam à descoberta de um dos engenhos erguidos pela Família Garcia D'Ávila em sua imensa sesmaria. O trabalho realizado pelo LITORAL NORTE irá contribuir para avivar a memória das comunidades e novas descobertas serão realizadas. Contribuímos com uma pequena parcela investigando em profundidade a propriedade da Odebrecht.

LITORAL NORTE – Qual a importância da peça com inscrições simbólicas descoberta num dos sítios?
ZANETTINI - A glória pertence ao engenheiro agrônomo Waldir Rebelatto, nosso incansável companheiro durante as pesquisas de campo. Quando ele me mostrou a placa de pedra com inscrições não pude acreditar. Ela é única nas Américas. Porém antes de divulgarmos um achado dessa importância temos que submetê-la a rigorosas análises, inclusive datações para nos certificarmos que ela pertencia ao sítio e em que época circulou na aldeia. Aguardem mais um pouquinho que estamos começando a escrever um livro a respeito.

LITORAL NORTE -. Está sendo prepara uma publicação sobre a Pré-História de Sauípe?
ZANETTINI - A direção do Projeto Sauípe, sensibilizada com os resultados, convidou-nos a integrar um projeto editorial de grande vulto, envolvendo outros estudiosos como os professores Cid Teixeira (História) e Glauco Nascimento (Ecologia). A empresa julgou fundamental devolver à comunidade seu passado. Todos têm a comemorar com essa iniciativa da Odebrecht. Um empreendimento do porte do Projeto Sauípe exige um livro definitivo. Temos muitos dias e noites de trabalho para escrevê-lo.

LITORAL NORTE – De que forma a comunidade baiana poderá ter acesso a essas descobertas?
ZANETTINI – Pretendemos que os sítios pré-históricos e históricos possam ser integrados a passeios e roteiros de visitação. Há inclusive a idéia de se criar museu, que batizamos improvisadamente de Museu das Descobertas ou Museu do Homem do Litoral Norte. Seria o local ideal para tornar-se o repositário desse Patrimônio Cultural.