PROJETO PRESERVA AVES AMEAÇADAS DE EXTINÇÃO


JORNAL LITORAL NORTE - 1999


Uma pequena cabana de palha localizada na foz do rio Real é hoje observatório privilegiado de um dos mais importantes fenômenos naturais do país: a concentração de aves migratórias, que começam a chegar à região de Mangue Seco no mês de outubro. Elas percorrem milhares de quilômetros desde os seus habitats de origem, localizados na América do Norte, na Europa (Portugal) e em outros estados do Brasil e ali permanecem durante todo o verão até o final de abril.

O espetáculo é fascinante: milhares de aves de ambientes aquáticos, a exemplo de gaivotas e maçaricos, grasnando e mergulhando nas águas transparentes em busca de alimento; sobrevoando o azul do céu que exerce um forte contraste com o branco das dunas de Mangue Seco. Quando a maré enche, a cabana fica ilhada sobre um banco de areia e os biólogos que a utilizam têm muitas vezes que atravessar a nado os braços formados pelo encontro do mar com o rio.

A presença dos pesquisadores se justifica pela extraordinária importância ecológica da região. Para se ter uma idéia, a Cetrel – Empresa de Proteção Ambiental do Pólo Petroquímico de Camaçari está atuando em parceria com uma das mais prestigiosas instituições científicas do mundo, o Museu de História Natural de Nova Iorque, com o objetivo de preservar duas espécies de gaivotas que migram dos EUA para o litoral norte da Bahia: o trinta-réis miúdo e o trinta réis róseo. A descoberta do trinta-réis róseo (Sterna dougallii) em Mangue Seco, feita pelo coordenador do projeto, Pedro Lima, em 1994, teve grande repercussão entre os cientistas americanos, que durante 30 anos procuraram saber inutilmente qual o local de invernada dessa espécie.

A preservação dessas aves implica na preservação dos seus habitats. De acordo com Lima, os fatores que mais ameaçam as gaivotas são o turismo desordenado e o excesso de carros, principalmente bugres, que trafegam no estuário do rio Real. O tráfego de automóveis na área consiste numa fonte geradora de emprego para os habitantes da região (a grande maioria dos motoristas são de Estância, cidade sergipana localizada na outra margem do rio Real), mas o seu uso não sofre nenhuma fiscalização por parte do governo estadual e da prefeitura de Jandaíra, o que dá margem a abusos que colocam em risco a segurança não somente os ecossistemas como dos próprios banhistas.

Uma forma de solucionar esses problemas, segundo Pedro, é mudar a imagem de Mangue Seco que foi criada pela mídia. Ao invés de um lugar de curtição para onde aflui um número muito grande de pessoas sem nenhum tipo de consciência ambiental, ela deve ser considerada como o que efetivamente é: uma reserva ecológica com o status de ser um dos lugares mais importantes do Brasil como rota de migração e invernada de muitas espécies de aves.

Ênfase na educação ambiental

O Projeto de Preservação da Fauna faz parte do Programa de Educação Ambiental da Cetrel, que engloba, entre outras atividades, o Centro de Triagem de Animais Silvestres, o Museu de Ciências Naturais e o projeto de preservação da arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leary), quarta ave mais rara do planeta, que vive na região do Raso da Catarina. Pedro Lima enfatiza a importância do trabalho de educação ambiental que é desenvolvido pela empresa. “Nesses 11 anos de funcionamento do programa, concluímos que nenhum pesquisador tem condições de preservar nada. Quem preserva são as comunidades quando elas estão devidamente informadas e conscientizadas”.

Associar a pesquisa com a educação ambiental é, portanto, o objetivo principal do trabalho desenvolvido pela Cetrel. Nesse sentido, a empresa firmou convênio com a Secretaria de Educação com o intuito de atender os alunos da rede pública estadual, dando ênfase a Salvador, Camaçari, Lauro de Freitas e Dias D’Ávila. Em apenas um ano a Cetrel recebeu 19 mil alunos das escolas desses quatro municípios, que visitaram o Museu de Ciências Naturais, montado em parceria informal com o Museu de História Natural de Nova Iorque.

Outro destaque do programa é o convênio firmado com o Ibama para triagem de animais silvestres apreendidos pela fiscalização do órgão, no comércio ilegal. Pedro afirma que, em apenas dois anos, 4.800 aves foram recebidas pelo centro e cerca de 80 espécies foram reintroduzidas em seus habitats corretos, em todo o estado. Graças aos cuidados no tratamento dessas aves, que são medicadas com antibióticos à base de penicilina e sulfas, vermífugos e complexos vitamínicos, alcançou-se um índice de mortandade de apenas 20% (de cada 10 aves, oito sobrevivem). O sucesso desse trabalho pode ser comprovado, segundo Pedro, através da reprodução das espécies reintroduzidas. “Já temos um grande número de papagaios, gaviões, periquitos, canários e outras espécies que já estão se reproduzindo em seus ambientes naturais”.

A ameaça do tráfico

Através do Programa de Proteção da Fauna, desenvolvido pela Cetrel, já foram identificadas mais de 345 espécies de aves nos diversos ecossistemas do Litoral Norte, o que equivale a mais de 50% das aves da Bahia (estimada em 679). Dentre elas, foram identificadas 12 espécies raras ou ameaçadas de extinção. As principais ameaças se devem, segundo Pedro Lima, à destruição dos habitats, com a conseqüente diminuição da biodiversidade, e ao tráfico de animais, responsável pelo desaparecimento anual, somente no Brasil, de 12 milhões de animais silvestres.
“Entidades ambientalistas internacionais estimam que o Brasil responde por algo entre 10% a 15% do mercado clandestino de animais silvestres, atividade que faz circular, no mundo inteiro, cerca de US$ 10 bilhões por ano, sendo que US$ 700 milhões só no Brasil”, diz Pedro. O pior de tudo é que cerca de 90% dos animais capturados morrem devido aos maus tratos. Ou seja: de cada dez animais destinados ao tráfico, apenas um sobrevive. As mortes são causadas por fome, sede, doenças, calor, asfixia em ambientes sem ventilação e esmagamento resultante da superpopulação nos locais onde são armazenados. O Centro de Triagem da Cetrel significa, de acordo com o pesquisador, uma importante ferramenta de combate ao tráfico. “Uma ferramenta que esperamos que um dia não seja mais necessária”.


Espécies raras e ameaçadas de extinção no Litoral Norte


Urubu-rei (Sarcoramphus papa): Identificado pela primeira vez em 1981, no município de Dias D’Ávila, foi redescoberto em 1988 na Via Atlântica que liga a Cetrel à Estrada do Coco.

Falcão peregrino (Falco peregrinus anatum): Originário da América do Norte, registrado pela primeira vez em Salvador em 1984, nas dunas do STIEP e posteriormente em Arembepe, Cetrel e Mangue Seco.

Trinta-réis róseo (Sterna dougalli): Descoberta em 1994, em Mangue Seco.

Trinta-réis miúdo (Sterna antillarum): Habita a mesma área do róseo.

Apuim-de-cauda-vermelha (Touit melanonota): Periquito de cauda curta, identificado, em 1984, na praia de Guarajuba. Habita também os municípios de Lauro de Freitas, Simões Filho e Camaçari.

Papagaio-chuã (Amazona rhodocorytha): Localizado, no ano de 1982, em Dias D’Ávila, depois não foi mais visto solto na natureza. É uma das espécies mais procuradas pelos traficantes.

Pintassilgo-do-nordeste (Carduelis yarrellii): Ave de grande beleza é também uma das afetadas pelo tráfico.

Caburé-canela (Aegolius harrisii): Identificado em 1992 durante os trabalhos de levantamento das espécies pertencentes à Cetrel.

Urutau-de-asa-branca (Nyctibius leucopterus): Semelhante a uma coruja, foi descrito pela primeira vez por Wied em 1821. Depois de 177 anos foi redescoberta no litoral norte da Bahia quando já se achava que estivesse extinta.

Olho-de-fogo-rendado (Pyriglena atra): Ocorre no baixo sul da Bahia, Recôncavo e no Litoral Norte. Descoberta em 1994 no município de Catu.

Pintassilgo-de-cabeça-preta (Carduelis magellanica): Ocorre de outubro a abril. Vítima freqüente do tráfico. Diversos indivíduos estão sendo reintroduzidos na natureza com sucesso pelo Centro de Triagem da Cetrel.
Campainha-azul (Porphyrospiza caerulescens): Ocorrência restrita ao ambiente de cerrado do Litoral Norte. Ameaçado de extinção devido à destruição do seu ambiente natural por queimadas e desmatamento.