ITAPUÃ: MEMÓRIA DO MAR


A imagem de Itapuã sempre esteve associada ao mar. O litoral recortado que se descortina do alto do Morro da Vigia, os coqueiros agitados pelo vento na costa, as dunas avançando para o interior, o farol marcando a presença do homem na lida com o perigo das ondas e dos arrecifes, os pescadores com suas jangadas e saveiros: elementos de uma paisagem singular.

Do mar, os índios, primeiros habitantes da região, tiraram seu alimento: o peixe, assado em fogueiras imemoriais, complementava a mandioca e o inhame cultivado nas roças. Na beira do mar, negros (ex-escravos e descendentes de escravos), deram origem a uma singular comunidade de pescadores que, durante muitos anos, viveu em função da pesca de baleias.

Naquele tempo, as baleias, numerosas na costa da Bahia, durante sua migração anual, nos meses de junho a setembro, foram caçadas por gerações de pescadores destemidos – arpoadores, timoneiros, moços d’alma, balaeiros e marinheiros – que tornariam o lugar conhecido como um dos mais importantes pontos da pesca de baleias do país. Nos dois “contratos”, localizados próximo à Igreja de Nossa Senhora da Conceição, os cetáceos eram tratados, tirando-se o toicinho (do qual se extraía o óleo) e a carne, que era transportada em balaios pelas ganhadeiras para ser vendida na cidade. “Os quintais ficavam cheios de carne de baleias penduradas ao sol”, testemunhou uma antiga moradora do local. No dia 12 de junho de 1912, essa pesca teria fim quando foi arpoada a última baleia em Itapuã, por um pescador de nome Damásio.

Sem dispor ainda de estradas que o ligasse a outros pontos da cidade, o bairro era abastecido pelos saveiros de carga, que transportavam carne, sal, café, farinha, cereais, bacalhau, açúcar, miudezas, linhas, tecidos e querosene, entre outros produtos. Nos dias de temporal, as mercadorias eram transportadas pela praia, no lombo dos animais. Não havia feiras. Não havia luz elétrica nem água encanada. Mas também não havia crimes, fome ou crianças de rua. As casas, quase todas cobertas com palha, eram construídas com o óleo da baleia e habitadas por homens, mulheres e crianças simples que viviam do mar. O mar alimentava a antiga comunidade de pescadores, que o tempo engoliu.

Os anos 30 marcaram o processo de transformação do bairro, com a construção de uma estrada de barro, que anos mais tarde viria a ser conhecida como a Estrada Velha do Aeroporto. Com a avenida Octávio Mangabeira (anos 50), chegaria, finalmente, o tão esperado progresso: o bairro se expandia, aumentava o número de casas residenciais e comerciais, os moradores já podiam dispor, finalmente, de água encanada, luz elétrica, posto médico e outros melhoramentos. Nos anos 60/70, o Centro Industrial de Aratu e o Pólo Petroquímico de Camaçari, grandes alavancadores da economia na região, exerceriam algumas modificações na tradicional estrutura sócio-econômica do bairro. O filho do pescador já não precisava ganhar a vida no mar. Já não precisava aprender o ofício dos seus pais.

Novos problemas surgiram: a devastação ecológica provocada pela especulação imobiliária, a proliferação de esgotos lançados ao mar, a destruição contínua das dunas, o crescimento das invasões. O mar, destituído da sua principal função, como fonte de subsistência do povoado, passou a atender a uma nova demanda: a do lazer e do turismo. Nos anos 70 e 80, Plakafor e as ruas J e K, no Farol, tornaram-se points para a mesma juventude, que hoje prefere praias mais distantes, como Aleluia e Praia do Flamengo.

A maior vocação econômica do Estado, o turismo, teria em Itapuã um dos seus pontos mais expressivos não fosse o estado de semi-abandono a que o bairro foi relegado. De fato, a Itapuã cantada por Dorival Caymmi e Vinícius de Moraes quase não existe mais. No lugar dela, cresceu outra: ruidosa, movimentada, insegura, mas que ainda conserva alguns dos seus mistérios. Eles estão lá, ocultos entre o asfalto e os coqueiros, entre os restaurantes e as dunas, entre as avenidas e as lagoas, entre as invasões e o sonho, na memória, no mar...