FLORESTAS E RIOS AMAZÔNICOS: UMA RELAÇÃO HARMONIOSA


Ecologia e desenvolvimento
Revista mensal brasileira de ecologia e meio ambiente
Nº 41 – Julho / 1994


Vista do alto ou através de fotos aéreas, a floresta amazônica parece ser uma sucessão contínua de árvores mais ou menos iguais onde reina uma profunda e monótona uniformidade. Nada mais falso. Na realidade, as pesquisas realizadas na Amazônia, desde as primeiras incursões dos zoólogos e botânicos que se aventuraram na região, no século passado, até os mais avançados estudos feitos atualmente com a utilização de sofisticados equipamentos, ressaltam a extrema complexidade dos ecossistemas e a grande variedade de espécies que ali interagem.

A íntima conexão entre animais, plantas, chuva, vento, rios e solos da Amazônia está sendo melhor compreendida hoje pelos cientistas. Nas matas de terra firme, nas florestas inundadas, nos campos, campinaranas e manguezais, eles realizam um trabalho árduo, tentando decifrar o enigma de uma esfinge que permanece praticamente intocada pelo homem, ao longo de sua história.

Para se compreender melhor as sutis variações e os intrincados mecanismos da ecologia amazônica, é necessário se conhecer um pouco a história da sua formação. Segundo as teorias geológicas mais recentes, da tectônica de placas e da derivação continental, acredita-se que a configuração atual da Amazônia ocorreu a partir do desmembramento do Gondwana - o continente que há centenas de milhões de anos reunia em um só bloco as terras que hoje correspondem à América do Sul, África, Antártica, Austrália e Índia. O rio Amazonas corria então para o Ocidente, no sentido oposto ao atual.

Com o deslocamento das imensas placas tectônicas (rochas basálticas, sobre as quais repousam os continentes e o oceano), a parte ocidental do Gondwana deslizou para oeste, chocando-se com o piso do Oceano Pacífico e soerguendo as rochas que formam hoje a cadeia dos Andes. A elevação dessas montanhas que se localizavam na foz do antigo Amazonas provocaram o represamento do rio, formando um gigantesco lago interior.

Posteriormente novos movimentos tectônicos e alterações no nível do mar provocaram a drenagem do lago, que encontrou saída ao leste, em direção ao Oceano Atlântico, enquanto as áreas anteriormente submersas e sobre as quais se acumularam sedimentos carreados dos Andes, passaram a ser revestidas por florestas e habitada por uma fauna silvícola, no Pleistoceno, há cerca de um milhão de anos.


Ecossistemas

Ao contrário do que se pensou por muito tempo, as florestas amazônicas (assim mesmo, no plural), são ecossistemas relativamente fechados. Sua pujança e riqueza não se devem à riqueza dos seus solos, e sim à capacidade que elas têm de se auto-alimentar, reciclando seus próprios detritos. "Em tais florestas", dizem os professores Carlos Rizzini e Adelmar Coimbra Filho (Ecossistemas Brasileiros, Ed. Índex, 1988), "as pequenas perdas de alimento, provindas do arrastamento pela água da chuva (em solo protegido pela cobertura vegetal densa), são repostas pela própria chuva, cujas águas lavam o ar, as copas e o tronco, dissolvendo boa quantidade de sais minerais, assim devolvidos em seguida ao solo". Esta característica de "circuito fechado" é bem representada pelo fato de que a floresta amazônica consome o próprio oxigênio que produz, não merecendo portanto o título que lhe atribuíram de "pulmão do mundo".

A imagem de uma floresta uniforme erguida sobre um solo rico em nutrientes, exportando oxigênio gratuitamente para o mundo é, não apenas falsa, como também pobre e redutora. Na realidade, a Amazônia é um conjunto complexo e intercambiante de ecossistemas aquáticos e terrestres, com solos em geral pobres (a exceção das áreas de várzea e algumas regiões de terra firme), e ambientes que inclúem de pântanos e cerrados até campinas e manguezais. Desses ecossistemas, a mata de terra firme predomina, cobrindo a maior parte dos 3.984.497 Km2 da Bacia Amazônica. Caracteriza-se por uma vegetação de grande porte e grande diversidade, com árvores de até sessenta metros de altura, situada em áreas mais elevadas onde não ocorrem habitualmente inundações.

As florestas inundadas, por sua vez, sofrem o assédio contínuo ou cíclico das águas, que transbordam durante as enchentes anuais, cobrindo grandes extensões das margens dos rios. Nessas áreas, a fauna e a flora desenvolveram adaptações e padrões comportamentais que lhes permitem sobreviver a enchentes de até oito meses.

As adaptações das espécies animais e vegetais nas florestas inundadas da Amazônia se diferenciam conforme as propriedades físico-químicas dos rios que banham esses ecossistemas e que se dividem em três tipos básicos: os de água branca, cujas nascentes se situam nos contrafortes dos Andes; os de água preta, que nascem no Planalto das Guianas e correm em direção sul, e os de água clara, que correm no Planalto Central brasileiro para o norte.

As diferenças entre as águas brancas, pretas e claras devem-se principalmente à quantidade de sedimentos que elas transportam e à sua composição química que influenciam de forma marcante os ambientes atingidos. Os rios de água branca, dentre os quais se destacam o Solimões, Madeira, Purus e Juruá, têm cor leitosa (barrenta) provocada pela maior concentreação de sedimentos e nutrientes carreados do solo relativamente recente dos Andes. Esses sedimentos, depositados ao longo do percurso, deram origem à várzea amazônica (extensas áreas de florestas periodicamente inundadas). Ali se forma um complexo ecossistema de lagos, ilhas de vegetação, canais e pântanos onde a vida é abundante. A grande quantidade de aluviões em suspensão, retirados do solo pela erosão, e a vegetação da várzea, são a base de uma cadeia alimentar rica e variada, envolvendo numerosas espécies, a exemplo de algas, invertebrados, moluscos, peixes, répteis, aves e primatas, adaptadas às enchentes anuais.

As águas pretas, pelo contrário, ressentem-se da escassez de sedimentos. Com suas nascentes situadas em formações rochosas mais antigas e resistentes, rios como o Negro e alguns dos seus tributários, têm uma coloração vermelho-escura, semelhante a um chá forte - tonalidade causada pela dissolução de substâncias da vegetação que formam ácido húmico e pelo baixo nível de nutrientes retirados do solo. No trabalho Rios e Enchentes da Amazônia como Obstáculo para a Avifauna, o ornitólogo Helmut Sick refere-se aos "rios famintos", onde "em consequência da falta de plantas aquáticas e algas faltam também invertebrados e moluscos e por conseguinte os peixes também não são numerosos. Até mosquitos só existem poucos".

Quanto aos rios de água clara, a exemplo do Tapajós, Tocantins, Xingu e Araguaia, são geralmente pobres em sedimentos, embora em algumas áreas se situem numa posição intermediária entre os citados anteriormente.

As áreas afetadas pelos rios de água preta e clara são geralmente definidas como igapó (há ainda subdivisões desse ecossistema, conforme o caráter cíclico ou permenente das inundações). Segundo o botânico Ghillean Prance, o igapó é caracterizado geralmente "pelo solo arenoso que sustenta uma vegetação mais pobre do que a de mata de várzea de rios de água branca. Em alguns lugares, o igapó suporta condições semelhantes às do deserto quando seco. (...) Há muito menos diversidade de espécies e, muitas vezes, fisionomicamente a vegetação tem árvores baixas e tortuosas. (...) Em alguns pontos, entretanto, ocorrre em algumas áreas do igapó vegetação semelhante à da várzea, especialmente no Alto Amazonas, na Colômbia e Perú, e na região do delta amazônico, onde ela ocorre em solo mais rico em vez da areia usual". Ele se refere ainda a outros ecossistemas sujeitos a inundação, como manguezais, florestas de planícies inundáveis e florestas de pântano.

Dispersão das sementes

Na Amazônia, os rios mantêm uma relação de perfeita intimidade com a floresta, exercendo uma influência marcante na transformação da sua paisagem. Isto é visível, sobretudo, nas áreas de várzea, onde as águas depositam grande quantidade de sedimentos que se acumulam formando bancos de lama. Essas porções de terra são gradativamente colonizadas pela vegetação, compondo ilhas de florestas recentes que convivem lado a lado com matas antigas. Além de participarem de uma dinâmica importante de renovação, as ilhas funcionam ainda como habitats de algumas espécies da fauna. "Essa vegetação pioneira tem uma avifauna típica", diz o ornitólogo carioca Fernando Pacheco. "Cerca de vinte espécies típicas da várzea só ocorrem nessas ilhas novas. Aparecem por volta do segundo ano de idade da vegetação, e quando esta fica msis velha, elas migram para outras ilhas".

Um outro papel importante desempenhado pelos rios nas regiões de várzea e igapó diz respeito à dispersão de sementes. Um estudo vem sendo feito nesse sentido na Estação Ecológica do Mamirauá, no Médio Solimões, pela bióloga paraense Andréa Pires, que observa há um ano mecanismos de dispersão como a água, o vento e os animais. "Os dados que tenho coletado podem ser analisados sob o ponto de vista das plantas e dos animais. É uma via dupla mostrada pelo estudo, ou seja, que animais mantêm quais plantas e que plantas mantêm quais animais". Os dados recolhidos, segundo a bióloga, revelam não somente a importância das plantas como alimento para a fauna, mas principalmente a importância da fauna para a sobrevivência das espécies vegetais, através da dispersão das sementes. "A diminuição da população de uma espécie de macaco, ave ou peixe reflete-se na sobrevivência das plantas".

"Na várzea do Mamirauá", continua Andréa, "além de agentes dispersores muito eficientes, como os macacos e as aves, o que mais me impressiona é o papel que os peixes desempenham nesse processo. Tenho observado resultados fantásticos mostrando que as sementes não sofrem ação inibidora da germinação quando passam pelo estômago e intestino de peixes como tambaqui, parapitinga e sardinha".

Um sinal significativo da relação dos rios com a dispersão das sementes parece estar na constatação de que é justamente no pico da cheia que ocorre a abundância de frutos. "Na mata de terra firme, o pico da frutificação ocorre em função da maior quantidade de chuva. Aqui pode ser determinado pela água, mas pela água da cheia, ou das espécies que dependem dos peixes para serem dispersadas".

"Na várzea os padrões de germinação são extremamente variados. O próprio ato de alguns animais se alimentarem de um fruto durante a estação cheia, mesmo que eles transportem as sementes e depositem através das fezes em algum lugar, não significa que elas vão ficar ali. Se elas flutuarem, vão ser transportadas ainda por outro agente, a água, para uma distância que ninguém imagina e para um destino que também não se conhece".


Rios: barreiras para a fauna

Em meados do século passado, Alfred Russel Wallace já fizera referências ao papel que os rios da Amazônia desempenham como barreiras para a fauna, mas coube ao ornitólogo Charles Hellmayr, do Museu de Chicago, a divulgação mais detalhada desse fenômeno, no início deste século".

"Ele foi um dos maiores ornitólogos que trabalharam com espécies tropicais", diz Fernando Pacheco. "Autor de quinze volumes de um catálogo de aves da América, Hellmayr observou variações entre as espécies que ocorriam nas margens opostas de rios como Solimões e Madeira. Hoje nós sabemos que os rios são barreiras e que essas barreiras implicam numa maior diferenciação das espécies, devido ao isolamento".

Dentre as aves que sofrem um maior grau de variação, Pacheco cita as da família Formicaridae. "Apesar de ter uma vasta distribuição, os formicarideos têm muitas sub-espécies, ou seja, variações geográficas, delimitadas pelos grandes rios". Um exemplo contrário é o do Lipaugus vociferans, popularmente conhecido como tropeiro ou frifrió, entre outros nomes. "Ele ocorre desde a Amazônia até as matas de tabuleiro do Espírito Santo sem sofrer praticamente nenhuma alteração. É um exemplo clássico de uma espécie para a qual os rios não funcionam como barreiras. Se você pegar um frifrió na Bahia e outro no Perú, certamente não vai observar nenhuma variação". A ampla distribuição dessa ave pode ser atribuida, segundo o ornitólogo, ao fato de já ter havido uma ligação entre as florestas da Amazônia e as da Mata Atlântica, do litoral brasileiro, até o Espírito Santo.

Embora os rios sejam obstáculos para muitas espécies de aves, que têm a capacidade do vôo a seu favor, existem mamíferos como o guariba, a onça e a preguiça que não são limitados por essas barreiras, atravessando-as a nado e se distribuindo igualmente por quase toda a Amazônia. No caso específico dos macacos, segundo o biólogo José Marcio Ayres, do CNPq, autor de uma tese de doutorado sobre o uacari-branco (Cacajao calvus calvus), endêmico da várzea do Mamirauá, no Médio Solimões, um fator que influencia o isolamento ou não de cada espécie é o seu peso corporal. "Os macacos pequenos têm mais dificuldade em atravessar os rios, ficando mais isolados". Marcio enfatiza a importância da várzea na manutenção do fluxo genético das populações. As ilhas de vegetação, formadas com os sedimentos trazidos pelas águas, facilitam o deslocamento dos animais de uma margem para outra dos grandes rios. "Daí a necessidade de se preservar essas áreas", diz ele, com a autoridade de ser idealizador e um dos responsáveis pela criação da Estação Ecológica do Mamirauá - uma reserva de 1,2 milhão de hectares, decretada pelo Governo do Estado do Amazonas em 1990. Protegida, desde julho de 93, pelo Ramsar, uma convenção internacional que preserva áreas úmidas em 77 países, a estação abriga espécies raras e restritas da fauna amazônica, a exemplo do já citado uacari-branco e do macaco-de-cheiro (Saimiri vanzolinii).

O fenômeno dos rios como obstáculos na distribuição da fauna amazônica é uma realidade que não deve, entretanto, ser superestimada. "Os precursores da maioria das espécies atuais já devem ter vivido ali num período em que a região não era, como hoje, cortada por grandes rios", explica Helmut Sick no trabalho citado, acrescentando que antes deles atingirem suas dimensões atuais, "os animais ali viviam numa vasta e - cum grano salis - ininterrupta zona de distribuição".