É BOM SABER - ROPHORNIS ARDESIACA, A AVE QUE SE ESCONDE


Ciência Hoje, Nº 66
Setembro de 1990
Carlos Ribeiro

Observar um dos mais interessantes pássaros brasileiros, o formicarídeo denominado às vezes papa-formigas-do-gravatá ou gravatazeiro, de nome científico Rophornis ardesiaca, foi o principal objetivo da viagem feita pelo fotógrafo Luiz Cláudio Marigo e pelo ornitólogo amador Carlos Eduardo de Souza Carvalho (ambos do Clube de Observadores de Aves do Rio de Janeiro) ao município de Boa Nova, na Bahia. Seguindo a orientação dos observadores Paulo Sérgio Moreira da Fonseca e José Fernando Pacheco, que visitaram a região pouco antes, eles conseguiram finalmente um dos poucos registros fotográficos dessa ave, feito que arrancou exclamações entusiasmadas do professor Helmut Sick, uma das maiores autoridades em ornitologia no mundo.

E não era para menos: considerada uma espécie difícil de ser encontrada, Rhopornis ardesiaca permanece ainda hoje, desde que foi descrita pelo príncipe Maximiliano von Wied-Neuwied, em 1831, com seus hábitos pouco conhecidos. Habitante de matas baixas e fechadas, é ave discreta, própria das áreas de sombra ricas em bromélias terrícolas e arborícolas, cujas flores são visitadas regularmente pelo beija-flor Chrysolampis mosquitus (ver Helmut Sick, Ornitologia Brasileira, v. II). Marigo assinala as dificuldades encontradas para fotografar a espécie: “O gravatazeiro vive nessa região de brenha cheia de cipós, de trepadeiras, gravetos, arbustos e galhos sempre na frente da câmera! Nós atraímos a ave com o gravador, reproduzindo a sua própria voz que havíamos gravado antes. Embora ela se aproximasse, não conseguíamos vê-la a três e até a um metro de distância! Em quatro dias só consegui fazer seis fotos, sendo que apenas uma pôde ser aproveitada.”

Rhopornis ardesiaca alimenta-se de pequenos gafanhotos e outros artrópodes que encontra nas formações terrestres de bromélias (Aechmea sp) da mata-de-cipó, nos galhos baixos e no chão, que percorre saltitando rápida e silenciosamente, enquanto revira as folhas caídas para capturar suas presas. Seu canto assemelha-se ao de Pyriglena leucoptera, outro formicarídeo que ocorre na região, e pode ser ouvido à distância de centenas de metros, sobretudo nas primeiras horas da manhã. O território de um casal tem aproximadamente 50 m de diâmetro, mas é separado de outro casal pelo dobro dessa distância ou mais.

Em 1928, Rhopornis ardesiaca foi redescoberta por Emil Kampfer, coletor do Museu Americano de História Natural, em Boa Nova, onde foi estudada em dezembro de 1974 pelo ornitólogo norte-americano Edwin Willis e sua esposa Yoshika Oniki, radicados em Rio Claro (SP). No ano seguinte, Willis comunicou suas observações ao organizador do “Livro vermelho das aves ameaçadas de extinção”, do Conselho Internacional para a Preservação das Aves da União Internacional para a Conservação da Natureza. Desde então, diversas excursões têm sido feitas à limitada área de ocorrência do papa-formigas-do-gravatá, que abrange principalmente os municípios baianos de Boa Nova e Jequié. As primeiras notas sobre a espécie foram publicadas por Willis e Oniki em 1981.

O Acelerado processo de destruição de seu habitat, com o desmatamento para criação de gado e agricultura, é fator preocupante para a conservação da espécie, em vista da dificuldade ou mesmo impossibilidade de que ela venha a se adaptar a novo ambiente. “O importante”, diz Carlos Eduardo, “é constatar que localmente a ave é comum, ou seja, não é rara onde ocorre”. Não existem hoje dados precisos sobre sua distribuição nem sobre o estado das matas onde vive. Mas é urgente e fundamental realizar essas pesquisas e delimitar uma área de conservação para preservar o pássaro e seu ambiente, de modo que o gravatazeiro continue sua evolução.

A criação de uma área de preservação ambiental, ou, melhor ainda, de uma estação ecológica ou reserva biológica nos municípios freqüentados por Rhopornis ardesiaca é uma reivindicação de conservacionistas e ornitólogos, reforçada ainda pela ocorrência de, pelo menos, mais um endemismo brasileiro da família Formicariidae: Formicivora iheringi.

A família Formicariidae é a segunda mais numerosa em espécie de aves na América do Sul, ocorrendo desde o México até o norte da Argentina. Na sua maiôs parte é formada por espécies de mata fechada, o que as caracteriza como “aves de segredo”, de difícil acesso para estudo e observação. Não são dadas a grandes vôos. Ocupam de preferência os estratos medianos e baixos das florestas, e com freqüência percorrem o chão das matas, saltitando em busca do alimento, que varia de insetos a lagartixas, ratinhos, pequenas cobras, filhotes de pássaros e rãs, ou sementes, a depender da espécie.

O nome papa-formigas é comum a vários formicarídeos e deriva, segundo Sick, “do fato de certas espécies (relativamente poucas) aproveitarem-se das manobras das formigas-de-correição, que servem de ´batedores`, levantando presas” (ver “Na trilha das formigas carnívoras”, em Ciência Hoje nº 47). Na realidade, elas não se alimentam das formigas, mas da profusão de insetos e outros artrópodes que fervilham na floresta e são espantados pelas correições. Paradoxalmente, apesar de Rhopornis ardesiaca ser denominada às vezes de papa-formigas-do-gravatá, essa ave não foi observada seguindo os exércitos de formigas-de-correição.

A preservação dos endemismos encontrados nas matas-de-cipó significa a sobrevivência de um ramo importante da vida, cuja única manifestação específica (no caso, espécies da família Formicariidae) data, segundo dados levantados pela paleontologia, de há pelo menos 20 mil anos, no Pleistosceno Superior, conforme fóssil encontrado em Minas Gerais. Em Boa Nova e Jequié ocorrem em vários biótopos mais de 11 espécies dessa interessante família de aves! E no mais, como diz Carlos Eduardo, “se existem dois passarinhos restritos àquela região, quem pode afirmar que não existam outros grupos zoológicos ameaçados, que poderiam também ser preservados com a criação de uma reserva ecológica?” Fica a proposta para o órgão responsável, o Ibama.