A TERRA E A GENTE DO VALE DO JEQUITINHONHA

Carlos Ribeiro

REVISTA GEOGRÁFICA UNIVERSAL – Nº 92 – JULHO / 1982

Enquanto subíamos lentamente e a serra do Espinhaço no ônibus que nos levava de Belo Horizonte para Serro, no Alto Jequitinhonha, nossos olhos, que iam percorrendo as saliências rochosas e acompanhando as suaves ondulações dos morros, perdiam-se nos elevados cumes das montanhas, entre as nuvens que que filtravam os primeiros raios de sol da manhã. Casas esparsas pontilhavam o caminho, nada mais havendo à nossa frente a não ser um futuro incerto com base em informações desencontradas – o Vale da Fome, com suas estradas empoeiradas por onde vagam os deserdados, minúsculas cabanas perdidas entre os rochedos, doença de Chagas, esquistossomose, o sol que calcina as pedras, e, atravessando desertos, o grande rio, com suas cachoeiras, ilhotas, bacias, saltos e remansos. Aí um rico artesanato recorda o universo mágico de um povo esquecido, enquanto o deserto verde, representado pelo reflorestamento com eucaliptos, vem sendo implantado por um dos maiores projetos florestais do mundo: uma área com mais de 85 mil quilômetros quadrados e que abrange cinqüenta e dois municípios cuja história remonta a exploração do ouro e diamantes nos séculos XVII e XVIII.

Mosaicos de cicatrizes talhadas durante séculos a fio na face da terra, onde o vento foi esculpindo silenciosas testemunhas nas rochas, o vale do Jequitinhonha seria a primeira região de Minas Gerais a ser pisada pelo homem branco. O local onde se encontra Serro - cujas ruas calçadas com pedras escorregadias entrecortam, sinuosas, o conjunto arquitetônico da cidade, no qual se destacam as igrejas e os casarões coloniais - era chamado pelos índios botocudos (que habitavam o vale antes da chegada das bandeiras) de Ivituruí, que significa Serro do Frio. Hoje a cidade é conhecida apenas pelo nome de Serro, sem dúvida bem menos poético. Aí chegavam, no século XVII, as primeiras expedições em busca do ouro que, explorado as margens do riacho Quatro vinténs, deu origem a Serro, localizada próximo à nascente do rio Jequitinhonha, na Pedra Redonda, e que, por ser a mais antiga povoação da região, é considerada a Mãe Histórica e Geográfica do Vale.

Beneficiada por um clima ameno, com ruas e casas que levam o visitante a um romântico retorno ao passado, Serro produz a o famoso queijo que leva seu nome, principal produto econômico do município. O queijo do Serro é fabricado artesanalmente nas fazendas da região, com métodos bastante rudimentares, e industrialmente por uma fábrica das proximidades da cidade.

Numa das fazendas pudemos com acompanhar o processo artesanal de fabricação do queijo - trabalho demorado, que exige muita paciência, além de certa habilidade. Segundo Galcindo, que trabalha no local há vinte e nove anos, "o negócio é simples". "Primeiro, o senhor tira o leite da vaca e bota pra coalhar. Depois, amassa, tira o soro, coloca na forma, bota sal e deixa mais um dia. Depois passa para outra banca (espécie de mesa de madeira) para dessorar mais (endurecer) e no fim rala. Aí é só lavar e pronto. O queijo já está feito." Simples? Galcindo diz que sim: "Mais difícil do que fazer isso é viver disso!" E aponta o pequeno rebanho de vacas a pastar indolentemente.

É evidente, hoje em dia, o estado de decadência das pequenas fazendas da região do vale. A escassez de mão-de-obra e a desvalorização do queijo artesanal, incapaz de enfrentar a crescente produção industrial, são as dificuldades apontadas pelos fazendeiros, que já pensam em diversificar suas atividades, não se atendo apenas à fabricação de laticínios.

Enquanto se buscam possíveis alternativas, as condições de vida continuam precárias e para quem vive sem terra própria, sem assistência médica ou qualquer tipo de organização que defenda o direito do trabalhador. Um quadro de abandono evidente, que se reflete inclusive no casarão colonial da fazenda onde Galcindo trabalha e no qual residiu, em fins do século passado, o Barão de Diamantina. Ao percorremos seu interior, o piso de madeira rangia a cada passo, e a todo momento deparávamos com morcegos que esvoaçavam assustados com os inesperados inesperados visitantes. Mas não vimos nenhum fantasma arrastando correntes nem entoando cânticos esquecidos. Só poeira dos salões e o silêncio das paredes e enegrecidas pelo tempo.


O Brasil é um país de estradas. Retas, curvas, sinuosa, inclinadas, poeirentas, planas ou esburacadas, elas aí estão, apontando um horizonte de esperança ou uma certeza de futuro. Cortam florestas, montanhas, vales, transpõem filetes e torrentes de água, dando assim passagem ao chamado progresso. E lá estávamos numa delas: deserta, silenciosa, acidentada. Antes, talvez, uma vereda aberta pelas bandeiras na busca de ouro e riquezas, pelos missionários ou ainda pelos aventureiros sem pátria e que sempre afluem em numerosos bandos aos locais onde haja algo a explorar. Poderia ser a mesma de há quatro séculos e ainda assim não constituiria um anacronismo pois não se trata de estrada moderna cortando região primitiva, mas justamente o contrário, uma estrada primitiva cortando uma paisagem nova - sucessão de árvores cônicas, apontando seus atos altos chapéus para o céu.

Encontrávamo-nos já no município de Turmalina e tudo o que víamos, além do caminho trilhado, eram apenas os eucaliptos, o chamado deserto verde. E assim, numa sucessão de quilômetros e quilômetros, o cenário permanecia monotonamente igual, estático, inanimado, deserto por completo de qualquer espécie de aves. Apenas o ronco do motor do ônibus, as ferragens que rangiam nos buracos, uma ou outra pessoa que falava. Tive ali a inquietante sensação de que não nos encontrávamos numa paisagem com vida.

O processo de ocupação e exploração do vale do Jequitinhonha passou por três fases. A primeira delas, no século XVII, com a garimpagem de ouro e, no século XVIII, do diamante. Foi a época das bandeiras paulistas e baianas, do dízimo, dos monumentos barrocos representados principalmente pelos conjuntos arquitetônicos de Diamantina, Serro e Minas Novas. A segunda, com a decadência da mineração, caracterizou-se pelo desenvolvimento da agricultura de subsistência e da pecuária nos latifúndios e nas sesmarias. Por fim, a terceira, que se deu com a implantação de cerca de 306 mil hectares de eucaliptos e pinheiros originários da Austrália, e cujo destino é o fornecimento do carvão vegetal para as usinas siderúrgicas.

No entanto, ainda hoje Diamantina tem na exploração do diamante sua principal fonte de economia, enquanto que a pecuária é uma atividade de grande importância no baixo Jequitinhonha. Já a agricultura é pouco desenvolvida, e só mais recentemente, com as grandes plantações de café que surgiram no município de Capelinha, é que começou a haver uma valorização maior desse setor.

A substituição das matas primitivas pelas matas homogêneas de eucaliptos teve início em 1974, quando uma grande empresa de reflorestamento se instalou na região. O vale, até então relegado a um completo abandono, conheceu relativo desenvolvimento – chegou a luz elétrica, o DDD, a canalização da água e mais empregos com a fixação da mão-de-obra local, impedindo o êxodo para as grandes capitais..

No entanto esse fenômeno trouxe também algumas conseqüência negativas, pois, desfazendo-se de suas terras consideradas devolutas pelo estado, famílias inteiras têm partido para as áreas urbanas do próprio vale em busca de empregos oferecidos pelas companhias de reflorestamento, formando favelas em torno de cidades despreparadas para abrigar tão grande número de pessoas. Perdendo as terras e ganhando somente de um a dois salários mínimos, os lavradores passam a sonhar com o conforto da civilização, conforto esse que nunca chega. E, passada a fase do desmatamento e do plantio, logo se vêem desempregados, sem opção alguma de trabalho.

Mas existe ainda um outro problema de extrema gravidade provocado pelo reflorestamento com eucalipto os e pinheiros - os prejuízos que afetam a ecologia e que são incalculáveis. A destruição de vasta área de vegetação, habitat natural de espécies que se equilibram naturalmente, e bem assim a aplicação de veneno para eliminar animais nocivos às plantações, afugentando aqueles que se alimentam dos mesmos, têm provocado uma quebra no equilíbrio do ecossistema da região. O resultado disso é o surgimento de pragas de insetos, que, multiplicados na ausência de seus inimigos naturais, atacam as lavouras e são, por sua vez, combatidos com mais veneno, formando dessa maneira um ciclo vicioso. O aumento do número de barbeiros e, conseqüentemente, da doença de Chagas, cujo índice na região é dos mais altos do país, é um dos resultados desse processo.


O rio Jequitinhonha esconde em sua curvas, em cenário marcado pelo abandono, pela doença e por tragédias, uma riqueza cujo valor se expressa numa multiplicidade de formas e cores. É o registro colorido e imaginativo dos costumes, crenças e hábitos, do universo mágico de um povo representado nas variedade de peças de barro, couro, madeira e algodão e que constituem o artesanato do vale, cujas origens remontam talvez aos grupos indígenas que habitavam a região.

Na Fazenda Campo Alegre, às margens do rio Fanado, no município de Turmalina, o movimento mostrava-se intenso no dia da nossa chegada. Era um dia de festa para os artesãos que, atraídos pelos fogos de artifício, surgiam das trilhas da mata, equilibrando à cabeça as mercadorias que iriam comercializar. O ponto de encontro era uma área de chão batido, ao lado de um galpão, onde as peças eram estocadas. Sereias, galinhas, potes, moringas, bonecas grandes e pequenas, toda a uma rica combinação utilitária e decorativa que, numa explosão de criatividade, constituía uma mostra do artesanato do vale.

Esse sistema de comercialização é o melhor para os artesãos da Fazenda Campo Alegre, unânimes em afirmar que a venda pelo velho sistema em feiras não era satisfatório. Nesse sentido, o trabalho desenvolvido pela Codevale (Companhia de Desenvolvimento do Vale do Jequitinhonha), através do programa de artesanato, é de grande serventia. A instalação de uma loja em Belo Horizonte na qual são vendidos os trabalhos comprados na região é considerada, por todos, uma decisão das mais válidas..

A existência de um mercado externo abre para os artesãos um sem-número de perspectivas que exercem influência na própria criação do artista. E isso vem sendo observado no desenvolvimento da cerâmica criativa, hoje mais valorizada pelos compradores, os quais revendem o produto nas capitais de nossos estados e até mesmo no exterior.

Ainda assim, as perspectivas não se mostram por enquanto boas, pois existem muitos fatores que dificultam a relação artista-revendedor. Para Ricardo Ribeiro – sociólogo e funcionário da Secretaria do Trabalho de Minas Gerais que vem desenvolvendo um programa de incentivo e apoio ao artesanato do vale – talvez o principal problema do artesão seja o da comercialização, a qual, embora feita de forma coletiva, não se constitui em associação organizada. A ignorância, quer no que diz respeito ao valor dos trabalhos, quer quanto destino dos mesmos, é total..

Tanto na Fazenda Campo Alegre como em outros núcleos do vale o trabalho é realizado em oficinas improvisadas ou ao ar livre, utilizando-se instrumental dos mais rudimentares. O sistema de trabalho varia de lugar para lugar ou de acordo com o tipo de artesanato. Todos os membros da família, com exceção dos que residem nas áreas urbanas, trabalham na roça, sendo o resultado do trabalho artesanal encarado mais como um reforço do orçamento doméstico.

Na realidade, o artesanato da região é antes fruto da necessidade econômica do que de exteriorização artística. Isso ocorre em todo o vale e são raras as exceções. A produção de Fanado é um exemplo claro: o ritmo de trabalho acelerado desses artesãos, em função do grande número de encomendas que têm de atender, acabou por tornar aquilo que era feito com prazer em trabalho enfadonho. E, para se ter uma idéia de como esse problema se vem generalizando, basta ver o que diz a artesã Josefa Pereira dos Santos: "Se eu não precisasse disso para viver eu continuava, mas continuava devagar. Agora é muito ligeiro. Faço assim porque preciso."

Para as tecelãs de Roça Grande, distrito de Berilo, uma das mais carentes cidades do vale, os problemas são quase os mesmos, com a diferença de três fatores básicos: a conscientização das mesmas quanto ao valores das suas peças, a divisão do trabalho e a valorização do produto no mercado. Efetivamente, essas tecelãs sabem que a sua produção é apreciada no mercado externo e tiram partido disso cobrando um preço mais elevado..

Embora aparentemente esse comportamento seja válido, para o sociólogo Ricardo Ribeiro trata-se de um aspecto negativo à medida que inflaciona o mercado, tornando o artesanato um artigo de luxo e impossibilitando que as pessoas da região adquiram peças utilitárias por causa de seu baixo poder aquisitivo. E acrescenta: "Se o preço for subindo você limita a capacidade de absorção do próprio mercado. Acho que não interessa ao pessoal colocar a produção no nível em que não tenham condições de vender."

Quanto à divisão do trabalho é interessante observar que na Fazenda Campo Alegre o número de peças fabricadas no tear, em relação às de cerâmica, é bem maior, dado que são fabricadas coletivamente por todos membros da família, enquanto que as outras são produzidas individualmente. "Se a gente fizer sozinha não faz nada - diz Leontina Gonçalves de Oliveira, tecelã de Roça Grande. - Se não houver união não adianta."

A matéria-prima utilizada na tecelagem é o algodão, tingido com tinta de urucum, açafrão, anil-do-mato, aroeira, imbiruçu e outras plantas. O algodão plantado nas roças é insuficiente. Assim, as tecelãs compram-no já fiado. Os homens, em geral, não participam diretamente da produção, mas ajudam na construção do tear e na manutenção do material.

Curiosamente, os melhores artesãos do vale vivem em lugares de difícil acesso, onde às vezes só se pode chegar em lombo de cavalo ou mula, ou, caso isso não seja possível, através de penosa caminhada. Eles se destacam pelo aprimoramento do trabalho e pelo amor dedicado à atividade que exercem e que nem sempre lhes proporciona interesse econômico imediato.

E foi assim que encontramos muitos outros artesãos do Jequitinhonha, como Ulisses, um artista surrealista, que vive a duas dezenas de quilômetros de Icaraí, em meio ao vale. Aí ele confecciona uma cerâmica de formas exóticas e que, segundo afirma, nascem de visões e mensagens de entidades que o visitam durante a noite. Ao contrário de Ulisses, a obra de Noemisa - "artista dos santos" - apresenta-se impregnada de um realismo que retrata os hábitos, os costumes e as crenças do povo da região. Comparável ela somente Ana do Baú, que vive na Fazenda do Baú e cujos trabalhos de cerâmica retratam a vida na roça. Neles Ana dá destaque às árvores, aos filhotes de onça e às aves que pousam nos galhos. E tudo isso fez com que ela se tornasse um símbolo do artesanato do vale.

Já havíamos percorrido 710 quilômetros quando chegamos a Araçuaí. Embora esta cidade se constitua em pólo econômico do médio Jequitinhonha, o valor estético de seu artesanato é pouco representativo em relação ao que é produzido em todo o vale. No entanto seria lá que iríamos encontrar Josefa Alves dos Reis – a Zefa – que, ao contrário dos outros artistas, não tem a preocupação de saber como e onde comercializar o produto do seu trabalho..

"Tenho prazer em fazer o meu serviço, pois para mim não existe nada melhor do que a minha arte. Quando vou dormir já estou pensando no que vou fazer amanhã. E assim faz oito anos e nunca tive tristezas."

E Zefa, que também tem suas dúvidas:

"O artesão é muito fraco em recursos e não tem benefício nenhum. Enquanto ele tiver saúde para trabalhar, tudo bem, ele se governa. Mas como vai se arranjar na velhice, quando não tiver mais coragem e as forças se acabar?"

A pergunta de Zefa ainda ecoava em nossas cabeças quando chegamos à BR 116, um sinal de volta à civilização. Depois de quinze dias percorrendo estradas, cortando rios e serras, testemunhando a carência de uma região (surpreendente se se levar em consideração sua situação geográfica), a qual muitas vezes nos fez lembrar o Nordeste brasileiro assolado pela seca, cerceado pela pobreza, parecia que nos encontrávamos no centro convergente do êxodo que atualmente se verifica no interior de Minas Gerais, com a poeira cobrindo os corpos queimados pelos sol, o calor incessante, o burburinho das ruas onde tudo se vende e um sem-número de mendigos e crianças esmolando nas calçadas. Retornávamos por fim ao asfalto, aos restaurantes, hotéis, postos policiais, ao ruído dos automóveis e das máquinas, aos anúncios luminosos, às manchetes dos jornais, enfim, a um mundo à beira da catástrofe. Mas jamais esqueceria os o vale do Jequitinhonha e sua população de pobres e artistas.